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Michel_Laub_Diario_queda_133 1.

“Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve”.*

 

2.

A primeira vez que fiquei com vontade de ler O Diário da Queda, apesar de já ter ouvido falar muitíssimo bem, foi quando uma professora leu partes do primeiro capítulo e contou um pouco da história: sobre um menino não judeu que, por estudar em uma escola judia, resolveu fazer um bar mitzvah. Os meninos judeus não gostavam dele, mas mesmo assim ele convidou a todos. Era comum, nessa festa, jogar o aniversariante 13 vezes para cima, número que correspondia ao número de aniversários que a pessoa estava fazendo.  Assim fizeram com o menino não judeu, mas, na décima terceira vez, resolveram jogá-lo para o alto e deixá-lo cair no chão. A professora não contou mais nada, mas imaginar aquele menino sendo jogado para cima, feliz, no dia do aniversário dele, de repente caindo no chão, no meio de todos os convidados me deixou imensamente triste e eu nem sei bem o porquê.

 

3.

Mas talvez meu interesse pelo livro tenha começado antes, no começo do ano, quando comecei a fazer Literatura Judaica Moderna na faculdade e fui me apaixonando pelas histórias, pelos livros, pelo simbolismo. Por essa ser uma das poucas matérias que me permitiram (e incentivaram) que eu dissesse para a sala inteira o que eu achava de tal e tal livro sem me sentir morta de vergonha ou exposta. Por o meu professor falar dos livros com pose de quem está declamando poemas.

 

4.

O livro tem duas características que fazem dele ainda mais interessante: a primeira é que ele é composto por pequenos capítulos, fragmentos numerados, que dão uma agilidade enorme à leitura, por mais pesada que às vezes a história seja.

 

5.

Era uma quinta-feira de muito sol, o ônibus estava cheio e eu comecei a chorar lendo uma das últimas partes do livro. E tive de parar de ler.

 

6.

“Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’. […] Foram justamente as privações, as pancadas, o frio, a sede que, durante a viagem e depois dela, nos impediram de mergulhar no vazio de um desespero sem fim. Foi isso. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: dela poucos homens são capazes, e nós éramos apenas exemplares comuns da espécie humana.”**

 

7.

Ou talvez o interesse tenha vindo um pouco antes, quando me deparei com o fato de que não faz assim tanto tempo que acabou a Segunda Guerra, que há milhares de marcas dela em toda parte da Europa, principalmente na Alemanha, na Polônia, na República Tcheca, na Áustria. E com a visão de todos aqueles sapatos que me fizeram me arrepender de ter viajado até ali.

 

8.

A outra coisa que é interessante no livro é que ele conta, na verdade mais duas histórias junto com aquela do menino não judeu no bar mitzvah: a do Holocausto e a relação do narrador com o seu pai (e com o pai dele). É sobre culpa e memória.

 

9.

O Primo Levi foi um dos sobreviventes de Auschwitz. Ele era químico, mas depois de tudo, ele escreveu um livro sobre tudo o que ele passou, chamado É isto um homem?. Mas ele também escreveu muito outros livros sobre o assunto. A lembrança que vem e volta.

 

10.

O Diário da Queda acabou e eu fiquei meio sem saber o que fazer com ele. Por isso esse texto sem pé nem cabeça depois de tanto tempo, também. O que eu posso dizer no final das contas é: se você for ler um livro contemporâneo brasileiro, esse aqui pode ser uma ideia muito boa. É o livro que eu recomendaria.

_____

* Michel Laub. O Diário da Queda. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. pág 8.

** Primo Levi. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. pág. 18.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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