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[…] Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. pág. 327)

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“Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve”.*

 

2.

A primeira vez que fiquei com vontade de ler O Diário da Queda, apesar de já ter ouvido falar muitíssimo bem, foi quando uma professora leu partes do primeiro capítulo e contou um pouco da história: sobre um menino não judeu que, por estudar em uma escola judia, resolveu fazer um bar mitzvah. Os meninos judeus não gostavam dele, mas mesmo assim ele convidou a todos. Era comum, nessa festa, jogar o aniversariante 13 vezes para cima, número que correspondia ao número de aniversários que a pessoa estava fazendo.  Assim fizeram com o menino não judeu, mas, na décima terceira vez, resolveram jogá-lo para o alto e deixá-lo cair no chão. A professora não contou mais nada, mas imaginar aquele menino sendo jogado para cima, feliz, no dia do aniversário dele, de repente caindo no chão, no meio de todos os convidados me deixou imensamente triste e eu nem sei bem o porquê.

 

3.

Mas talvez meu interesse pelo livro tenha começado antes, no começo do ano, quando comecei a fazer Literatura Judaica Moderna na faculdade e fui me apaixonando pelas histórias, pelos livros, pelo simbolismo. Por essa ser uma das poucas matérias que me permitiram (e incentivaram) que eu dissesse para a sala inteira o que eu achava de tal e tal livro sem me sentir morta de vergonha ou exposta. Por o meu professor falar dos livros com pose de quem está declamando poemas.

 

4.

O livro tem duas características que fazem dele ainda mais interessante: a primeira é que ele é composto por pequenos capítulos, fragmentos numerados, que dão uma agilidade enorme à leitura, por mais pesada que às vezes a história seja.

 

5.

Era uma quinta-feira de muito sol, o ônibus estava cheio e eu comecei a chorar lendo uma das últimas partes do livro. E tive de parar de ler.

 

6.

“Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’. […] Foram justamente as privações, as pancadas, o frio, a sede que, durante a viagem e depois dela, nos impediram de mergulhar no vazio de um desespero sem fim. Foi isso. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: dela poucos homens são capazes, e nós éramos apenas exemplares comuns da espécie humana.”**

 

7.

Ou talvez o interesse tenha vindo um pouco antes, quando me deparei com o fato de que não faz assim tanto tempo que acabou a Segunda Guerra, que há milhares de marcas dela em toda parte da Europa, principalmente na Alemanha, na Polônia, na República Tcheca, na Áustria. E com a visão de todos aqueles sapatos que me fizeram me arrepender de ter viajado até ali.

 

8.

A outra coisa que é interessante no livro é que ele conta, na verdade mais duas histórias junto com aquela do menino não judeu no bar mitzvah: a do Holocausto e a relação do narrador com o seu pai (e com o pai dele). É sobre culpa e memória.

 

9.

O Primo Levi foi um dos sobreviventes de Auschwitz. Ele era químico, mas depois de tudo, ele escreveu um livro sobre tudo o que ele passou, chamado É isto um homem?. Mas ele também escreveu muito outros livros sobre o assunto. A lembrança que vem e volta.

 

10.

O Diário da Queda acabou e eu fiquei meio sem saber o que fazer com ele. Por isso esse texto sem pé nem cabeça depois de tanto tempo, também. O que eu posso dizer no final das contas é: se você for ler um livro contemporâneo brasileiro, esse aqui pode ser uma ideia muito boa. É o livro que eu recomendaria.

_____

* Michel Laub. O Diário da Queda. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. pág 8.

** Primo Levi. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. pág. 18.

“Te parecia que caminhávamos juntos? Que algumas vezes subíamos? Fico me perguntando como foi possível ter imaginado que era a mesma paisagem o que nós dois víamos, mácula lútea                     Quê?                    Mancha amarela                               Quê?                    Fovea centralis, poço central, é um estudo sobre os olhos, sobre os nossos olhos, sabe, o de todos.                              Ahn.                      Os olhos de todos de matéria igual, mas a carne do que eu vejo, a envoltura, o espesso que os meus olhos atravessam, nada igual, ainda que os teus olhos se mantenham na mesma direção do meu desejo, lâmina de ágata colocada à tua frente, transparência plúmbea, carne de pedra eu digo, e a palavra me distancia no mesmo instante em que repito carne de pedra e não estou mais ali, nem sou, nem vejo, porque o vínculo se quebra quando repito língua intumescida: carne de pedra. Tadeu comungado no mesmo existir duro da pedra e ainda assim Tadeu distanciado, te vejo, nos vemos, mas tudo é absolutamente desigual, e isso repito e repenso porque parece maldito o meu olhar.”

(Hilda Hilst, Tu não te moves de ti. São Paulo: Editora Globo, 2004. pág. 27).

13623_gg          Talvez eu esteja roubando ligeiramente de novo nesse desafio, mas, para o tema Poesia, eu escolhi o a teus pés, da Ana Cristina César. Isso porque eu fiquei felicíssima com essa edição linda da Companhia das Letras (que, na verdade, chama Poética e é a coletânea dos livros da Ana Cristina) e porque não é um livro só de poemas, mas tem textos em prosa também. Mas, assim, só porque tem prosa, não quer dizer que não tenha poesia, certo? Porque mesmo os textos que não estão em versos são extremamente poéticos.

Além disso, a Ana fez poesias com o cotidiano, em uma linguagem coloquial e até simples, com vários diálogos e expressões, o que até faz o poema, às vezes, ficar com toda a pinta de prosa. Sem falar que alguns deles (alguns dos meus favoritos do livro, diga-se de passagem) estão ainda mais nesse limite entre poesia e prosa, porque eles têm só uma linha (ou será que só um verso?).

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.

É só uma frase, mas que, para mim, evoca tantos sentimentos diferentes. Um deles é, por exemplo, o sentimento de saudades: a volta. Volta para casa ou volta para a infância, sentimento que todo mundo tem de vez em quando. Ou a necessidade da volta: a vida nos levando em círculos sempre para o mesmo lugar, para as mesmas faltas. Outro é a questão da perda e até do luto. Voltar e olhar os quartos vazios é presentificar uma ausência. Talvez os quartos antes estivessem cheios, mas agora estão vazios e o vazio causado por uma coisa é tão presente que é preciso voltar e olhá-lo de frente. Ou talvez a gente siga em frente e o passado seja composto apenas por vazios (porque só o presente tem matéria)? É uma frasezinha só, mas olha como sai um milhão de coisas dela. (sem falar que ela sempre me faz lembrar de outro vazio, o daquele verso mais triste do mundo do Chico: “saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”).

Acho que em quase todos os poemas ou textos ou frases desse livro há certa quebra de expectativa, de inversão (ainda que trate de coisas cotidianas). O “cartilha da cura”, por exemplo – outro poema (?) de uma frase só:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

É até engraçado, porque é uma frase ou uma lei que todo mundo já cansou de ouvir (em caso de o navio afundar, mulheres e crianças saem primeiro), mas pensar desse jeito invertido: que elas são a causa e não as vítimas do naufrágio causa quase um susto quando a gente lê. (E não é essa uma das funções da poesia – e talvez da arte em geral – desautomatizar nossa visão sobre o mundo e sobre a linguagem?)

Um poema de que eu gostei muito é o “pour mémoire”, principalmente do final: “(…) Não me toques, / foi minha cortante resposta / sem palavras / que se digam / dentro do ouvido / num murmúrio. / E mais não quer saber / a outra, que sou eu, / do espelho em frente. / Ela instrui: / deixa a saudade em repouso / (em estação de águas) / tomando conta / desse objeto claro / e sem nome.”

No fundo, acho que ela pode se explicar muito melhor do que eu jamais conseguiria. Então deixo, para encerrar esse texto sem eira nem beira, o poema “este livro”:

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É

prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade

que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a

carapuça.

E cante.

Puro açúcar branco e blue.

(Aqui, tem um booktrailer com outro poema de a teus pés, “Samba-canção”.)

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Ana Cristina Cesar. a teus pés in poética. Companhia das Letras, 2013.

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Este é um post para o Desafio Literário SDDS Augusto, nomeado por mim e criado pela Gabi. Este livro é o do mês de junho, em que o combinado era ler poesia. Aqui você pode ver a minha a minha lista de possíveis leituras para os próximos meses.

barba                Um dia um pai chama seu filho mais novo e diz: vou me matar. Logo após ter passado no enterro do pai, muito rápido para não ter de encontrar com o irmão, este filho decide se mudar de Porto Alegre para Garopaba, cidadezinha à beira-mar em que seu avô, conhecido como Gaudério, tinha vivido. Ele queria, além de afastar-se do mundo que ele conhecia, tentar descobrir quanto de verdade havia por trás da lenda de que, durante uma festa, a luz apagou de repente e, quando acendeu, o corpo de Gaudério, ensanguentado, jazia no chão: assassinado pela cidade inteira, que o odiava e temia. É mais ou menos assim que começa Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera (ou seja, sambando na nossa cara).

“(…) Dizem que haverá tédio e tristeza na calmaria e que o frio e a solidão ressuscitarão todos os fantasma sazonais conhecidos e também despertarão alguns desconhecidos, mas falam disso como se ainda não fosse hora e houvesse tempo de sobra para se preparar.” (pág. 128)*

            Tão incomum quanto a história de que participa é o próprio protagonista do livro, um professor de natação que possui uma condição neurológica que não permite que ele consiga guardar rostos na memória. Assim, para reconhecer as pessoas, ele acaba tendo de memorizar as formas do cabelo, uma tatuagem, uma pinta, o jeito de a pessoa andar ou uma forma de sorrir. Para ele, a beleza de um rosto é sempre uma surpresa: e esta impossibilidade de se acostumar com o rosto das pessoas, primeira marca de identidade, acaba gerando descrições de extrema sensibilidade.

             O legal é que este protagonista nunca é nomeado: não ter um nome é também uma forma de não desvendar para o leitor o seu rosto, sua identidade, o que obriga o leitor, de certa forma, a lançar mão das mesmas estratégias que ele usava para reconhecer as pessoas: apegar-se a outra característica qualquer. A única forma de se lembrar dele é como um professor de natação, como o dono da Beta, uma cachorra, como o neto do Gaudério, como o irmão do Dante, como um cara de barba: e o sangue tarda, mas não falha.

“(…) Imagina uma baleia ali no rasinho, quase na praia. O que será que ela sente? Pode ser que veja a fronteira de um outro mundo remoto e mortífero, tão ameaçador quanto o mar é pra gente. Mas pode ser que seja como voltar pra casa. Como voltar pro útero da mãe. Uma coisa tentadora. Vai ver que é por isso que elas encalham sem motivo aparente. Porque o mar não tem limites. O terror do oceano tá nisso. É o útero ao contrário. Acho que as baleias vivem nesse terror.” (pág. 250)*

                Barba Ensopada de Sangue é uma leitura deliciosa, uma história muito difícil de largar, mesmo depois de o livro já ter acabado (sabe aquelas histórias que ficam dias e dias na cabeça?). Li boa parte dele em ônibus e me envolvi tanto com a trama que, mesmo cercada por asfalto e cinza, bastava abrir o livro para sentir o cheiro do mar e ouvir os latidos da Beta. Bastavam só algumas linhas para acabar nesta outra cidade, longe da minha, e para sentir a delícia que é ouvir um sotaque diferente do meu.

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* Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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Este é um post para o Desafio Literário SDDS Augusto, nomeado por mim e criado pela Gabi. Este livro é o do mês de janeiro, em que o combinado era ler algo de Literatura Brasileira. Aqui você pode ver a minha a minha lista de possíveis leituras para os próximos meses.

“Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Machado de Assis, segundo capítulo de Dom Casmurro. 

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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