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Cem-anos1Eu não sou lá muito de acreditar em destino. Mas às vezes acredito um pouquinho por causa de livros como esse. Estava eu lá: malzona, no meio de um tour ao porão do fundo do poço que virou minha vida (acalma o drama aí, miga, volta) e aí vem esse livro. Que eu até já tinha lido e por isso nem estava pensando em ler de novo assim tão por agora: lá pelos meus 13/14 anos (sabe-se lá), fui passar um tempo na casa de uma tia, que olhou para a minha cara de entediada e disse: “ah, cê gosta de ler? Toma esse livro aqui e para de me encher o saco” (a última parte ela não disse). E eu li mesmo e lembro de ter gostado. Tanto tempo depois lembrava só vagamente de tantos Aurelianos e das páginas e páginas que eu tive que ler duas vezes porque achava que estava lendo sobre um personagem, mas descobria lá na frente que na verdade era outro.

Mas acabou que resolvi participar de um Clube de Leitura que ia discutir esse livro. Decidi assim: duas semanas antes, passei na livraria, não achei o livro, perguntei pra vendedora, encontraram um no estoque. Comecei a ler. E o livro me agarrou de uma tal forma, desde as primeiras linhas, que eu tinha que me puxar de volta pelo cangote, saindo forçada de Macondo (a cidade onde se passa a história).

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. (p. 43)*

Primeiro porque é impossível não se envolver com a história da família Buendía, tão enredada nela mesma que se desenrola em espirais, e não acabar torcendo para que o personagem que tem a solidão mais parecida com a nossa consiga alguma paz, algum sucesso. Para mim foi assim: mesmo do lado de fora do livro, a história me prendeu tanto, que era um pouco como se, se aquele personagem conseguisse ser feliz afinal, eu também pudesse conseguir.

Poucos meses depois, diante do pelotão de fuzilamento, Arcádio haveria de reviver os passos perdidos na sala de aula, os tropeços contra as carteiras, e por último a densidade de um corpo nas trevas do quarto e o latejar do ar bombeado por um coração que não era o dele. Estendeu a mão e encontrou outra mão com dois anéis num mesmo dedo e que estava a ponto de naufragar na escuridão. Sentiu a linha de suas veias, o pulso do seu infortúnio, e sentiu a palma úmida com a linha da vida truncada na base do polegar pelo bote da morte. (p. 153)

Não é novidade nenhuma dizer, até pelo título do livro, que Cem Anos de Solidão é uma história sobre diferentes modos de ser sozinho. Sobre a incomunicabilidade que está sempre à espreita nas relações humanas. A começar pelo patriarca da família, José Arcádio Buendía, por exemplo, que por mais que tenha um elevado senso de comunidade (foi ele, principalmente, que fundou Macondo e fez questão de organizar as casinhas de modo que todas ficassem à mesma distância do rio), acaba sendo incompreendido por buscar o conhecimento e o mar. E é um pouco como se todos os personagens ficassem dando voltas em torno deles mesmos, sem conseguir achar saídas. O que pode parecer bem triste – e, a bem da verdade, é. Mas tudo isso é mostrado de um jeito muitas vezes muito leve e cheio – cheio, cheio – de imagens bonitas e leves, mesmo quando trata da morte, distante a princípio, mas cada vez mais próxima da experiência dos personagens.

(…) Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram através da janela que estava caindo uma garoa de minúsculas flores amarelas. Caíram a noite inteira sobre o povoado numa tempestade silenciosa, e cobriram os telhados e tamparam as pontas e sufocaram os animais que dormiam na intempérie. Tantas flores caíram do céu, que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e foi preciso abri-las de novo com pás e ancinhos para que o cortejo pudesse passar. (p. 180)

(…) Naquela noite, a guarda fulminou Mauricio Babilônia quando ele erguia as telhas para entrar no banheiro onde Meme esperava, nua e tremendo entre os escorpiões e as borboletas, como tinha feito quase todas as noites dos últimos meses. (p. 327)

Mas vai ficando cada vez mais claro que não é só a história de uma família, mas a história da própria América Latina. No discurso que o Gabo fez quando ganhou o Nobel, ele explica:

Eu me atrevo a pensar que é esta realidade descomunal, e não só a sua expressão literária, que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, pleno de desdita e beleza, e do qual este colombiano errante e nostálgico não passa de uma cifra assinalada pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência de recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão. (p. 10)

E, de fato, o mais inacreditável talvez não sejam as flores que chovem com a morte de um personagem ou os tapetes voadores trazidos pelos ciganos, mas a luta sangrenta entre os liberais e os conservadores; os ditadores que aparecem para governar Macondo, que estava tão bem governando a si mesma; os estrangeiros que chegam a Macondo para tirar lucro da plantação de bananas e que massacram seus trabalhadores e vão embora, deixando uma chuva devastadora que cobre todos os rastros de sangue que eles deixaram para trás. Pois é, qualquer semelhança com a nossa história e de nossos vizinhos latinos não é mera coincidência.

Como eu disse, eu não sou muito de acreditar em destino. Mas que bom, que bom que esse livro me encontrou quando eu estava precisando tanto de companhia, de fantasia, de identificação, de poesia. Eu terminei de ler o livro no chão da Livraria Cultura, vinte minutos antes do Clube de Leitura e chorei no final. Porque é um livro tão lindo, meus amigos, tão lindo. E é uma raridade, um presente mesmo, esbarrar com algo que desperte na gente essa paixão, essa vontade de chorar de tristeza (por ter acabado), de felicidade (por ter vivido a experiência) e pura e simplesmente de beleza.

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  • Gabriel García Márquez. Cem Anos de Solidão. Editora Record, 2015. Tradução de Eric Nepomuceno.
Uma mistura de guache e gauche.

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