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O final do primeiro ano de Letras, na minha faculdade, é a hora de escolher a habilitação. Linguística, Inglês, Hebraico, Armênio, Russo, Alemão… as opções são várias, cada uma lá com o seu atrativo. Eu entrei no curso pensando em fazer Inglês, mas no final do ano já estava acabando o cursinho e estava tão cansada da língua depois de dois intensivos, que mudei de ideia. Eu tinha acabado de descobrir Cortázar e Borges e estava pendendo para o Espanhol, embora sempre tenha achado Francês uma língua linda.

Um dia, estava sem o que fazer na internet e fui entrando de perfil em perfil no Orkut. De gente que eu nem conhecia. E comecei a olhar os vídeos (lembram que lá tinha um espaço para vídeos?) Até que eu trombei com a Nara Leão cantando Joana Francesa. Nunca tinha ouvido falar da música, muito menos dessa versão dela. A Nara sorrindo em preto e branco. Canto em português e francês com muito charme. Errando o comecinho da música duas vezes. Ai meu Deus. Até que ela dá uma olhadinha pra cima e começa a cantar.

Não sei se cabe a cada um de nós poucos ou muitos desses momentos na vida. Dessas coisas minúsculas vistas de longe, mas que jogam a nossa vida para um outro lado qualquer. Um bater de asa de borboleta no Japão. Muitos ou poucos, esse foi um. Eu não sou uma pessoa muito musical. Mas aquela música, aquele vídeo, naquele momento me emocionou tanto que eu senti um arrepio. E pensei: decidi, vou fazer Francês.

O mais curioso em ser dessas pessoas que tomam decisões por impulso, por subjetividades muito mais do que por racionalidades e por planos (e eu não estou certa que esse seja o melhor jeito de tomar decisões de vida – muito provavelmente não) é pensar nos caminhos alternativos que a minha vida poderia ter tomado fossem outras as situações impressionantes que passassem pelo meu caminho.

 

Ano passado, por exemplo, no meio dos ritmos comuns do cotidiano (o tique taque dos relógios, os cem passos até o ponto de ônibus, os 20 minutos de caminhada até o trabalho, a musiquinha do despertador), alguma coisa destoou. Semicolcheia semicolcheia colcheia. Era meu coração dando uns trancos. Mal sabia ele o que ainda estava por vir. (Coração físico e metafísico batendo na mesma toada esquerda, gauche, torta. Mas essa é outra história).

Entre os muitos exames que o cardiologista pediu que eu fizesse estava um ultrassom do meu coração. Nunca esqueço. Vi meu coração na tela e o médico explicou: aqui, o vermelho é o sangue entrando e o azul é o sangue saindo. E aí ele ligou o som. E o que eu ouvi não foi o tum-tum tum-tum que a gente ouve no peito de alguém. Foi uma espécie de shvush shvush, o sangue sendo bombeado. E ouvir assim meu próprio coração foi uma das coisas mais bonitas do mundo. Fiquei muito impressionada. E cheguei a pensar que, caso eu tivesse feito esse exame antes do colegial, a essa altura da vida poderia até ter virado cardiologista.

 .

Hoje, comecei a ler Contato, do Carl Sagan. E o começo já é tão gostoso de ler, a personagem principal é tão bacana, que me veio um pensamento parecido à mente: será? Será que se eu tivesse trombado com esse livro antes, naqueles meus passeios meio aleatórios à biblioteca, eu não teria ido para a Física? Para a Astronomia? (Juro que eu até que era boa em Matemática). Que outro “eu” eu seria agora? Que grão de areia ainda pode mudar minha vida inteira?

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Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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