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Este é o centésimo post deste blog. Fosse um supermercado, talvez tocassem sirenes, caíssem confetes, saísse uma voz dos autofalantes, eu ganhasse um cheque maior do que o meu tamanho (e eu sou dez centímetros mais alta do que a média feminina nacional!) e tirasse foto com todos os funcionários. Mas não.

Até porque tem menos a ver com sorte do que com falta do que fazer com não desistência. Com coceirinha na ponta dos dedos. Com a empolgação e o medo trazidos pela página em branco (as do Word, na minha opinião, mil vezes mais assustadoras do que as de cadernos).

Este é o último post do BEDA também. Deu certo. Vocês acreditam? Porque eu não. Não muito. Eu sou ruim com essas coisas. Mas deu certo e aqui estou eu: escrevendo nada com nada no trigésimo dia do mês.

Vou contar para vocês: foi bem cansativo e teve dias em que eu pensei em simplesmente não postar nada e pronto. (quem acompanhou os 100 Happy Days no Instagram sabe como eu terminei só depois de muitos trancos e barrancos). Mas foi muito bacana também, porque eu escrevi sobre coisas que eu provavelmente não teria escrito em outra circunstância. Porque me ajudou também naquela missão meio grupo de suporte anônimo: um dia de cada vez.

Eu muito provavelmente teria jogados os posts todos para o alto também se não fossem os comentários e os incentivos. Brigada por me acompanharem nesses trinta dias. Mesmo. (:

Eu já disse o quão eu estou surpresa por ter dado certo??? Weeeee! o/

[…] Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. pág. 327)

O final do primeiro ano de Letras, na minha faculdade, é a hora de escolher a habilitação. Linguística, Inglês, Hebraico, Armênio, Russo, Alemão… as opções são várias, cada uma lá com o seu atrativo. Eu entrei no curso pensando em fazer Inglês, mas no final do ano já estava acabando o cursinho e estava tão cansada da língua depois de dois intensivos, que mudei de ideia. Eu tinha acabado de descobrir Cortázar e Borges e estava pendendo para o Espanhol, embora sempre tenha achado Francês uma língua linda.

Um dia, estava sem o que fazer na internet e fui entrando de perfil em perfil no Orkut. De gente que eu nem conhecia. E comecei a olhar os vídeos (lembram que lá tinha um espaço para vídeos?) Até que eu trombei com a Nara Leão cantando Joana Francesa. Nunca tinha ouvido falar da música, muito menos dessa versão dela. A Nara sorrindo em preto e branco. Canto em português e francês com muito charme. Errando o comecinho da música duas vezes. Ai meu Deus. Até que ela dá uma olhadinha pra cima e começa a cantar.

Não sei se cabe a cada um de nós poucos ou muitos desses momentos na vida. Dessas coisas minúsculas vistas de longe, mas que jogam a nossa vida para um outro lado qualquer. Um bater de asa de borboleta no Japão. Muitos ou poucos, esse foi um. Eu não sou uma pessoa muito musical. Mas aquela música, aquele vídeo, naquele momento me emocionou tanto que eu senti um arrepio. E pensei: decidi, vou fazer Francês.

O mais curioso em ser dessas pessoas que tomam decisões por impulso, por subjetividades muito mais do que por racionalidades e por planos (e eu não estou certa que esse seja o melhor jeito de tomar decisões de vida – muito provavelmente não) é pensar nos caminhos alternativos que a minha vida poderia ter tomado fossem outras as situações impressionantes que passassem pelo meu caminho.

 

Ano passado, por exemplo, no meio dos ritmos comuns do cotidiano (o tique taque dos relógios, os cem passos até o ponto de ônibus, os 20 minutos de caminhada até o trabalho, a musiquinha do despertador), alguma coisa destoou. Semicolcheia semicolcheia colcheia. Era meu coração dando uns trancos. Mal sabia ele o que ainda estava por vir. (Coração físico e metafísico batendo na mesma toada esquerda, gauche, torta. Mas essa é outra história).

Entre os muitos exames que o cardiologista pediu que eu fizesse estava um ultrassom do meu coração. Nunca esqueço. Vi meu coração na tela e o médico explicou: aqui, o vermelho é o sangue entrando e o azul é o sangue saindo. E aí ele ligou o som. E o que eu ouvi não foi o tum-tum tum-tum que a gente ouve no peito de alguém. Foi uma espécie de shvush shvush, o sangue sendo bombeado. E ouvir assim meu próprio coração foi uma das coisas mais bonitas do mundo. Fiquei muito impressionada. E cheguei a pensar que, caso eu tivesse feito esse exame antes do colegial, a essa altura da vida poderia até ter virado cardiologista.

 .

Hoje, comecei a ler Contato, do Carl Sagan. E o começo já é tão gostoso de ler, a personagem principal é tão bacana, que me veio um pensamento parecido à mente: será? Será que se eu tivesse trombado com esse livro antes, naqueles meus passeios meio aleatórios à biblioteca, eu não teria ido para a Física? Para a Astronomia? (Juro que eu até que era boa em Matemática). Que outro “eu” eu seria agora? Que grão de areia ainda pode mudar minha vida inteira?

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Chegar a São Paulo de madrugada, vinda do outro lado do mundo (avesso do avesso do avesso do avesso) é como sair da escuridão noturna e pousar sobre o céu estrelado.

Black-MirrorSe você já assistiu Twilight Zone e gostou, tenho quase certeza de que vai gostar de Black Mirror. Mas não precisa nem ter assistido: basta gostar de séries dramáticas e inteligentes. Black Mirror é uma série distópica: os episódios – todos independentes entre si, com elenco diferente e tudo – acontecem, principalmente, em uma sociedade com novas tecnologias e nos fazem refletir sobre como todas elas podem interferir na nossa vida.

Não é uma série de terror, mas, pelo menos para mim, foi difícil não ficar tensa com cada um dos episódios. Isso porque, por mais longe que estejamos de aparelhos como o que aparece no s01e03, por exemplo, capazes de gravar e reproduzir nossas memórias, percebemos logo de cara uma desconfortável semelhança com os tempos de compartilhamento, selfies e smartphones em que vivemos.

Cada temporada tem só três episódios e eu só assisti a primeira por enquanto, mas o primeiro episódio foi o mais perturbador para mim. Nele, uma pessoa que sequestra uma “princesa” faz uma exigência ao Primeiro Ministro muito diferente das exigências convencionais. (e não vou comentar mais nada, porque descobrir que exigência é essa e acompanhar se o Primeiro Ministro vai aceitá-la ou não ou se vão conseguir encontrar a princesa a tempo ou não faz parte de toda a graça do episódio). Mas é bizarro acompanhar a reação do público a toda situação.

15millO segundo episódio mostra um mundo completamente diferente do que vivemos: nele, as pessoas são obrigadas a assistirem uma tela o tempo todo enquanto não estão dormindo e, caso queiram pular as propagandas, são obrigadas a pagar por isso (dinheiro que elas ganham pedalando em uma bicicleta ergométrica o dia inteiro).

gno7ymbzdhxplid3iinkNo terceiro, como eu disse ali em cima, todas as pessoas possuem um equipamento que permite que elas gravem as próprias memórias, as assistam de novo e as exibam em telas de tv para outras pessoas. O episódio mostra o absurdo todo que isso gera na vida de um casal (imaginem em uma briga: “não, as palavras que você usou foram exatamente essas: play”) e tem uma cena bastante marcante em que os dois transam mecanicamente assistindo à memória deles mesmo transando em um dia anterior.

Enfim, fica a dica. Pelo que eu vi, a série está quase toda no Youtube. Deixo aqui a promo:

Michel_Laub_Diario_queda_133 1.

“Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve”.*

 

2.

A primeira vez que fiquei com vontade de ler O Diário da Queda, apesar de já ter ouvido falar muitíssimo bem, foi quando uma professora leu partes do primeiro capítulo e contou um pouco da história: sobre um menino não judeu que, por estudar em uma escola judia, resolveu fazer um bar mitzvah. Os meninos judeus não gostavam dele, mas mesmo assim ele convidou a todos. Era comum, nessa festa, jogar o aniversariante 13 vezes para cima, número que correspondia ao número de aniversários que a pessoa estava fazendo.  Assim fizeram com o menino não judeu, mas, na décima terceira vez, resolveram jogá-lo para o alto e deixá-lo cair no chão. A professora não contou mais nada, mas imaginar aquele menino sendo jogado para cima, feliz, no dia do aniversário dele, de repente caindo no chão, no meio de todos os convidados me deixou imensamente triste e eu nem sei bem o porquê.

 

3.

Mas talvez meu interesse pelo livro tenha começado antes, no começo do ano, quando comecei a fazer Literatura Judaica Moderna na faculdade e fui me apaixonando pelas histórias, pelos livros, pelo simbolismo. Por essa ser uma das poucas matérias que me permitiram (e incentivaram) que eu dissesse para a sala inteira o que eu achava de tal e tal livro sem me sentir morta de vergonha ou exposta. Por o meu professor falar dos livros com pose de quem está declamando poemas.

 

4.

O livro tem duas características que fazem dele ainda mais interessante: a primeira é que ele é composto por pequenos capítulos, fragmentos numerados, que dão uma agilidade enorme à leitura, por mais pesada que às vezes a história seja.

 

5.

Era uma quinta-feira de muito sol, o ônibus estava cheio e eu comecei a chorar lendo uma das últimas partes do livro. E tive de parar de ler.

 

6.

“Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’. […] Foram justamente as privações, as pancadas, o frio, a sede que, durante a viagem e depois dela, nos impediram de mergulhar no vazio de um desespero sem fim. Foi isso. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: dela poucos homens são capazes, e nós éramos apenas exemplares comuns da espécie humana.”**

 

7.

Ou talvez o interesse tenha vindo um pouco antes, quando me deparei com o fato de que não faz assim tanto tempo que acabou a Segunda Guerra, que há milhares de marcas dela em toda parte da Europa, principalmente na Alemanha, na Polônia, na República Tcheca, na Áustria. E com a visão de todos aqueles sapatos que me fizeram me arrepender de ter viajado até ali.

 

8.

A outra coisa que é interessante no livro é que ele conta, na verdade mais duas histórias junto com aquela do menino não judeu no bar mitzvah: a do Holocausto e a relação do narrador com o seu pai (e com o pai dele). É sobre culpa e memória.

 

9.

O Primo Levi foi um dos sobreviventes de Auschwitz. Ele era químico, mas depois de tudo, ele escreveu um livro sobre tudo o que ele passou, chamado É isto um homem?. Mas ele também escreveu muito outros livros sobre o assunto. A lembrança que vem e volta.

 

10.

O Diário da Queda acabou e eu fiquei meio sem saber o que fazer com ele. Por isso esse texto sem pé nem cabeça depois de tanto tempo, também. O que eu posso dizer no final das contas é: se você for ler um livro contemporâneo brasileiro, esse aqui pode ser uma ideia muito boa. É o livro que eu recomendaria.

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* Michel Laub. O Diário da Queda. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. pág 8.

** Primo Levi. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. pág. 18.

A leitura da Simone de Beauvoir, de quem gosto muito, me levou a ler Sartre. Gostei muito também. Parece que toda a filosofia antes dele (ou mais ou menos, já que Heidegger e Husserl chegaram a esboçar pensamentos no mesmo sentido) acreditava que o homem tem uma essência,  algo que cada um é mesmo antes de nascer. Assim, por exemplo, o Platão acreditava (grosso modo) que existiam formas perfeitas e que todas as coisas do mundo são reproduções dessa perfeição e muitos outros falaram de alma, de destino. Para o Sartre, não. A frase-chave do Existencialismo é “a existência precede a essência”: o homem é um vazio e se constrói por seus atos, não há nada antes deles. O homem é movimento em direção a ele mesmo, “para-si” (já que ele está sempre em busca de se constituir). A realidade humana é liberdade, justamente porque é gratuita (gratuita porque não tem causa, já que não tem nada que venha antes e que a determine). O que é bonito e triste, porque somos condenados a ser livres (outra frase sartriana famosa). Existe um drama na liberdade, porque se somos o que fazemos, não existem mais desculpas (não podemos dizer que fomos covardes porque nascemos assim ou porque Deus quis ou porque era para ser) e, do mesmo jeito que são completamente livres, os seres humanos são completamente responsáveis por seus atos.

Estar em vez de ser é maravilhoso, mas aterrorizante. Toda ação (e não agir também é ação, também é escolha) carrega essa responsabilidade. Acho que gostei de ler o pouquinho que li de Sartre justamente porque tenho experimentado este completo vazio. Essa sensação de trem descarrilado. Tudo o que eu faço sou eu, mas eu não sou. Só a morte transforma as pessoas em absolutas, em começo meio e fim, em destino. O que não deixa de ser curioso: porque significa que só se é quando não se é mais.

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(Da série: falando do que não entendo muito bem, como quando falei de Física).

Eu sempre fui uma adolescente muito tranquila. Talvez por isso. Talvez por isso essa revolta tardia. Talvez por isso essa raiva que me bate de tudo e de todos, um rompante, em um dia qualquer, como hoje. Raiva do despertador tocando tão cedo. Raiva do cara sentado na minha mesa. Raiva da professora que dá risada sozinha. Raiva da ex-colega de trabalho me dizendo coisas imbecis e se achando muito incrível. Raiva de todas as pessoas no ponto de ônibus e dentro do ônibus. Raiva da menina rindo alto na rua. Raiva do computador desligando sozinho. Raiva da sujeira. Raiva da minha confusão. Raiva queimando minha garganta, me dando náuseas e vontade de chorar e de dar um soco na parede, raiva, sem motivo, engolida, raiva, raiva, raiva.

“Te parecia que caminhávamos juntos? Que algumas vezes subíamos? Fico me perguntando como foi possível ter imaginado que era a mesma paisagem o que nós dois víamos, mácula lútea                     Quê?                    Mancha amarela                               Quê?                    Fovea centralis, poço central, é um estudo sobre os olhos, sobre os nossos olhos, sabe, o de todos.                              Ahn.                      Os olhos de todos de matéria igual, mas a carne do que eu vejo, a envoltura, o espesso que os meus olhos atravessam, nada igual, ainda que os teus olhos se mantenham na mesma direção do meu desejo, lâmina de ágata colocada à tua frente, transparência plúmbea, carne de pedra eu digo, e a palavra me distancia no mesmo instante em que repito carne de pedra e não estou mais ali, nem sou, nem vejo, porque o vínculo se quebra quando repito língua intumescida: carne de pedra. Tadeu comungado no mesmo existir duro da pedra e ainda assim Tadeu distanciado, te vejo, nos vemos, mas tudo é absolutamente desigual, e isso repito e repenso porque parece maldito o meu olhar.”

(Hilda Hilst, Tu não te moves de ti. São Paulo: Editora Globo, 2004. pág. 27).

(era para as músicas aparecerem de sexta, mas, já que não teve música na última, vamos fazer uma pequena mudança na nossa programação)

Nas últimas duas semanas eu comentei o quanto gosto de músicas instrumentais e da liberdade interpretativa (embora, ao mesmo tempo, ligeiramente limitada) que elas proporcionam. Mas a verdade é que também pode acontecer o contrário: de uma música me tocar principalmente por causa da letra – ou mesmo só por causa de um verso. Foi o que aconteceu quando eu ouvi pela primeira vez o último verso de In the aeroplane over the sea, do The Neutral Milk Hotel.

Como a maioria dos relacionamentos, acho que esse carinho teve muito a ver com timing: aconteceu de eu topar com essa música justamente quando eu estava em um período de me questionar sobre a validade de alguns dos meus pequenos atos, de algumas de minhas escolhas bruscas. Um momento de questionar quem eu sou e quem eu deveria ser (assunto que já foi pisado e repisado nesses últimos dias por aqui) e que essas perguntas foram, de alguma forma, extrapoladas para assuntos mais gerais, como o sentido da vida, o sentido da morte.

Eu, que tenho mania de enxergar conexões, vi tudo isso em Todos os homens são mortais, em Mr. Nobody, nesta música. Tem uma parte dela que diz:

And one day we will die and our ashes will fly from the aeroplane over the sea,

But for now we are young let us lay in the sun,

And count every beautiful thing we can see

(E um dia morreremos e nossas cinzas voarão de um avião sobre o mar

Mas por enquanto somos jovens, vamos deitar no sol

E contar todas as coisas bonitas que podemos ver)

Mas, mais importante que este trecho, ou que todo o resto da letra, para mim, são os últimos versos, que ficaram ressoando na minha cabeça por um bom tempo.

How strange it is to be anything at all.

(Que estranho é ser qualquer coisa)

E em alguns dias, não todos (definitivamente não todos), eu ainda acrescentaria, como o John Green: how strange and lovely it is to be anything at all. Que coisa mais estranha (principalmente estranha) e mais adorável pode ser ser qualquer coisa nessa vida.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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