(era para as músicas aparecerem de sexta, mas, já que não teve música na última, vamos fazer uma pequena mudança na nossa programação)

Nas últimas duas semanas eu comentei o quanto gosto de músicas instrumentais e da liberdade interpretativa (embora, ao mesmo tempo, ligeiramente limitada) que elas proporcionam. Mas a verdade é que também pode acontecer o contrário: de uma música me tocar principalmente por causa da letra – ou mesmo só por causa de um verso. Foi o que aconteceu quando eu ouvi pela primeira vez o último verso de In the aeroplane over the sea, do The Neutral Milk Hotel.

Como a maioria dos relacionamentos, acho que esse carinho teve muito a ver com timing: aconteceu de eu topar com essa música justamente quando eu estava em um período de me questionar sobre a validade de alguns dos meus pequenos atos, de algumas de minhas escolhas bruscas. Um momento de questionar quem eu sou e quem eu deveria ser (assunto que já foi pisado e repisado nesses últimos dias por aqui) e que essas perguntas foram, de alguma forma, extrapoladas para assuntos mais gerais, como o sentido da vida, o sentido da morte.

Eu, que tenho mania de enxergar conexões, vi tudo isso em Todos os homens são mortais, em Mr. Nobody, nesta música. Tem uma parte dela que diz:

And one day we will die and our ashes will fly from the aeroplane over the sea,

But for now we are young let us lay in the sun,

And count every beautiful thing we can see

(E um dia morreremos e nossas cinzas voarão de um avião sobre o mar

Mas por enquanto somos jovens, vamos deitar no sol

E contar todas as coisas bonitas que podemos ver)

Mas, mais importante que este trecho, ou que todo o resto da letra, para mim, são os últimos versos, que ficaram ressoando na minha cabeça por um bom tempo.

How strange it is to be anything at all.

(Que estranho é ser qualquer coisa)

E em alguns dias, não todos (definitivamente não todos), eu ainda acrescentaria, como o John Green: how strange and lovely it is to be anything at all. Que coisa mais estranha (principalmente estranha) e mais adorável pode ser ser qualquer coisa nessa vida.

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A eles, com carinho.

Não sou Alice nenhuma: por todo lado o coelho me segue. Não quero olhá-lo, mas o que mais posso fazer se é seu brilho que me ilumina na solidão da noite escura? Tenho ouvido chamarem meu nome ao longo de todo esse dia e sequer enxergo quem me chama. Mas, atravessando a rua, senti: meu perfume com um cheiro que eu nem conheço mais.

Peço desculpas pela ausência: sei que, num mundo de vazios, qualquer palavra é consolo e companhia. Eu tenho estado leve e só não voo mais porque o sono tem me levado a sabe Deus que lugar sem sonhos. Tudo o que faço, então, é inventar o que vejo para que os outros acreditem que há esperança lá fora. Tudo é tão pouco, tão escasso, mas o nada é vasto e recobre a imensidão celeste e a finitude marítima. Eu corri, fugindo do que eu já sabia que me alcançaria, para contar: o mar é ainda maior do que o céu e os anjos estão todos submersos. Não sei o que significa, não me importo, já foi dito, posso parar de correr. Estou tão cansada. Quando eu parar, mais uma vez dormirei sem sonhos naquilo que vem antes do mundo, do verbo. É injusto e patético guardar tudo em frasquinhos, ainda que em troca de pão e carinho.

Não sou estrela nenhuma: meu suspiro luminoso só mostra aos navegantes o caminho da perdição. Atraio borboletas: as brancas e mortas compõem a minha coroa: faço o que posso para que seja a Morte uma de minhas súditas (para esconder a sete palmos que sou escrava de outras passagens, até mais cruéis).

Renuncio a meu trono de imperatriz. Renuncio ao mundo das delicadas colorações. Renuncio ao que sobra de mim após cada dia interminável tombando em cascata amarela – posso viver bem sem mim.

Falando sobre coisas que eu nem entendo: em 1905, Einstein descobriu que não faz sentido falar de espaço sem tempo e vice-versa. Nem tempo e nem espaço são coisas absolutas: espaço e tempo são um emaranhado. Esse emaranhado pode ser distorcido por massas (e a força da gravidade é um reflexo dessa distorção). Tem a ver com Einstein também a história de que o tempo passa de formas diferentes dependendo do observador. É aquela historinha: se um irmão gêmeo ficar na terra e o outro ficar alguns anos no espaço, quando ele voltar, ele estará mais jovem do que seu irmão que ficou por aqui, porque o tempo passa mais devagar quanto mais rápido se viaja. Parece louco e achismo, mas não: isso foi comprovado (e é com base nesse conhecimento que os GPS funcionam).

(Na velocidade da luz, o tempo não passa. Se fosse possível viajar mais rápido do que a luz, o que aconteceria? Voltaríamos no tempo?)

Também a gravidade influencia a passagem de tempo: quanto mais perto da Terra se está, mais sujeita uma pessoa fica à curvatura que a Terra provoca no espaço-tempo e, portanto, mais devagar o tempo passa para ela. Significa que, na praia, o tempo realmente passa mais devagar.

Segundo Doctor Who (assistam! assistam! assistam!):

41P3GF4mwrL._SY344_BO1,204,203,200_Acho que não é muito segredo para ninguém o quanto eu fiquei completamente apaixonada pelos Miseráveis. Esse mês, resolvi ler um outro calhamaço (embora seja até que bem pequeno, comparado aos Miseráveis) do Victor Hugo: O Corcunda de Notre-dame ou Notre Dame de Paris, que foi o título original. Quando comecei a ler, ainda não tinha assistido ao desenho da Disney, então achei que, bom, se tinha desenho da Disney, não era possível que fosse um livro assim tão pesado. No que eu me enganei bastante.

corA história se passa na Idade Média e, como em Os Miseráveis, entrelaça diversos personagens: o poeta atrapalhado Gringoire, que acaba por se juntar ao grupo dos marginais da cidade; a encantadora Esmeralda, uma cigana belíssima que dança e apresenta os truques de sua cabra Djali pelas ruas; Cláudio Frollo, o abade da Notre-Dame, bom o suficiente para salvar da morte, quando bebê, a criança deformada que aparece no cesto das crianças abandonadas da igreja, mas que é capaz de atrocidades por ser torturado pela paixão que sente por Esmeralda; Quasímodo, a tal criança deformada, que, adulto, passa a ser o sineiro da Notre-Dame e que, por causa disso, fica surdo, além de ser corcunda, de ter uma verruga horrível acima de um dos olhos e de ser manco (e que, claro, também se apaixona por Esmeralda) e Phoebus, por quem Esmeralda se apaixona, mas que já está noivo e que, pra falar a verdade, só queria levar Esmeralda pra cama.

802967Como indica o nome original, a catedral de Notre-Dame acaba sendo, também, personagem importantíssimo da história. É nela – ou bem perto dela – que acontecem os momentos mais dramáticos do enredo. Isso porque o livro de Victor Hugo tinha o propósito de tentar impedir que ela fosse derrubada (porque, na época que o livro foi escrito, ela já estava bem acabadinha por causa das guerras napoleônicas) e de denunciar o descuido com esse monumento que foi, por muito tempo, o mais alto da cidade de Paris e que presenciou tanto de sua história. O livro sensibilizou o público e deu força a um movimento popular de preservação da catedral: vejam vocês, o romance salvou a catedral que, hoje, é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade.

Os três personagens principais, Esmeralda, Frollo e Quasímodo, guardam algumas semelhanças com a própria catedral: da mesma forma que ela é um local sagrado e onde se vai para chegar aos céus, ela também tem um lado sombrio, é o local da queda, até mesmo por conta das gárgulas (que no desenho da Disney são fofinhas e ajudam o Quasímodo <3). Esses personagens também oscilam, de alguma forma, entre o bem e o mal e os três são personagens de alguma forma torturados.

Se nThe_Hunchback_of_Notre_Dame_wallão tão tocante ou tão apaixonante quanto Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame é, com certeza, um livro muito mais sombrio. No desenho da Disney, as coisas são bastante amenizadas e até simplificadas: nele, Frollo é só ruim e Phoebus é só bom, por exemplo. A Esmeralda do desenho também me pareceu uma personagem bem mais interessante: mais ousada, mais autossuficiente e bem menos romântica do que a do livro. O final do desenho, já aviso, é bem diferente do final do livro. Mas os acontecimentos principais estão lá e é um desenho muito gostoso de assistir.

Em mim, tudo o que é racional é a mais completa farsa montada pelo meu eu-profundo. E fujo tanto à minha própria compreensão que quase chego à conclusão de que não existo: antes, porém, procuro, penso, desenvolvo uma complexa cadeia de raciocínios lógicos para provar que estou errada e, mais uma vez, minto. Uma mentira repetida mil vezes vira verdade? Hesito na 999ª vez e recomeço: uma mentira nova, um novo conto, mais uma novela, página virada. Sou uma reprodução de mim e me pergunto se chego a ser o melhor de meus personagens. Ao que me respondo: sim. Novecentas e noventa e nove vezes.

Tem muita (muita) gente que não curte, mas eu acho videoarte uma coisa interessante, às vezes. Esse tipo de expressão artística surgiu lá pelos anos 60, quando as câmeras portáteis ficaram mais populares e a diferença entre ser artista e não ser ficou menor, porque o instrumento estava ali: ao alcance de todos. Os artistas da época tentavam fazer arte que fosse não narrativa, para tentar se diferenciar de tudo aquilo que passava na televisão ou no cinema.

Uma das histórias que sempre me impressionaram é a do Bas Jan Ader. Os vídeos dele, num geral (mas principalmente na série Fall, que significa Queda) trabalham com as noções de falência e de desaparecimento, usando a imagem do artista que cai e que chora (comum nos anos 70). Curiosamente, além da câmera, a técnica que ele usava era: a gravidade. E, com ela, apesar de ter um lado engraçadinho e até meio surrealista, ele criou trabalhos melancólicos e que interrogam sobre o sentido da vida.

Um dos vídeos dele, por exemplo, o I’m too sad to tell you (estou triste demais para te dizer), em looping, mostra ele mesmo chorando. Daí a gente olha aquilo e se pergunta: será que ele está sofrendo como pessoa ou como artista? Será que ele está mesmo sofrendo? Ou será que ele é um fingidor, como diz Pessoa sobre os poetas?

Nessa época, era muito forte a noção de que vida e arte são indiscerníveis. E a própria vida do Bas Jan Ader refletiu um pouco isso (e aí está a parte que realmente me impressiona): enquanto estava gravando uma parte de uma obra chamada In search of the miraculous (à procura do miraculoso), ele se perdeu no meio do oceano. Só o barco dele foi encontrado, alguns meses depois.

Assovia o vento dentro de mim.

Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

 (Eduardo Galeano, “A ventania” in O Livro dos Abraços, pág. 270)

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Pequeno aviso: quartas-feiras (supondo que meu Beda sobreviva até a próxima) serão os dias dos trechos por motivos de: acordo muito cedo na quinta. Não estou roubando! nem vem.

Tem coisas que são engraçadas: a gente começa a arrumar os e-mais todos em pastinhas, a deletar os que não servem mais para nada – ressaca e resolução de pontas soltas que acaba por acontecer depois da arrumação de tudo o mais, inclusive de mim mesma, que vem sempre no final do ano (e 2014, para mim, ainda não acabou direito) – olha o e-mail de uma pessoa que, estranho, a gente não vê faz tempo e resolve mandar um oi, perguntar o que aconteceu. Ela estava triste, parou de ir à faculdade e responde tão emocionada por eu ter lembrado dela que eu fico sem saber. E o tempo está tão fresquinho que lá vou eu subindo cinco andares pela escada, como se não houvesse amanhã. Mas há: amanhã, eu tenho que entregar um trabalho imenso. Uma preocupação a menos, um tempinho a mais para dormir, uns troquinhos a mais. E amanhã eu recomeço a concluir esse fantasma de 2014, aos poucos. Ao mesmo tempo, não sei se quero o fim – que são difíceis, ainda que haja um recomeço logo ali -, empaco no trabalho e venho escrever no blog e procrastinar, como quase sempre nessas situações. Eu vou e não sei para onde estou indo, é normal? Continuo subindo os cinco andares? Apaixonar-se é sempre solitário? Me diz, por que que o céu é azul? Que pessoa é essa que eu me tornei às minhas custas?

Não sei. Talvez descubra amanhã. Será?

Apesar de. Estava eu voltando hoje para o apartamento nessa noite abafada, tomando um sorvete de chocolate, quando percebi: isso era tudo o que eu esperava da vida no dia de hoje (e até mais que tudo!). Sobre amanhã, não sei: a gente sempre quer tanto, a gente sempre espera tanto e usa palavras grandes como “sempre”, “nunca”, “impossível”, “felicidade”, “tristeza”. A gente tem tanta fome das coisas. Tanta fome. Mas, sabem do quê? No dia de hoje, no instante agora, no momento-já, minha alegria é palpável: esta cidade, este apartamento e o sorvete de chocolate na noite abafada.

Imagine por um segundo que Deus tenha criado o gato à Sua imagem.

O gato?

Sim, o gato. Depois de mil anos ou de alguns segundos, sei lá, Deus criou o homem.

O homem?!

Sim. Com o único objetivo de servir o gato e de ser seu escravo até o fim dos tempos.

Escravo?

Exatamente. Assim, Deus deu ao gato indolência e lucidez e, ao homem, neurose e paixão de construir e de possuir as coisas.

Sei.

Sabe nada. Assim, o homem só foi criado para se responsabilizar pela existência do gato. Tá entendendo?

Sim, sim, tô entendendo.

É isso. Toda a civilização que o homem construiu só teria um objetivo: oferecer ao gato conforto, comida e abrigo.

Ao gato?

Exatamente. Assim, o homem só teria inventado milhares de objetos para produzir outros objetos necessários ao bem-estar do gato. O pescador, o tapete, a almofada, o aquecedor, a tigela. Talvez também o rádio, porque os gatos gostam de música.

Fico feliz que você tenha resolvido o problema de quem nós somos e por que, fazia tempo que isso me perturbava.

Me perturbava também, mas tá vendo? Era só pensar um pouco.

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Cena de Eu te amo, eu te amo (Alain Resnais, 1968)

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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