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          Sempre que ia visitar um lugar antigo, como um Palácio da Justiça ou uma Prefeitura, me falavam da salle des pas perdus, cuja tradução literal é: a sala dos passos perdidos. Sem saber muito bem o que era, ficava imaginando um local misterioso, mal-assombrado, em que a gente conseguisse ouvir passos sem dono, almas que nunca conseguiram chegar aonde queriam, andando em círculos, perdidas, procurando luz. Talvez um grande corredor pelo qual alguns presos tinham de passar antes de sua execução. Devia ser um lugar para ir e ser esquecido, como se o chão de pedra pudesse engolir a nossa identidade: o vestíbulo do lugar para onde vão os desaparecidos, sem deixar nenhum rastro. Em dias mais otimistas, ainda criei a teoria de que era um lugar para a gente ir principalmente quando não quisesse mais se encontrar, quando quisesse passear olhando vitrais do século XI ou algo do tipo, sem realmente se importar com eles ou consigo mesmo: só com o reflexo colorido que eles deixavam no chão. Olhando para os tais vitrais do século XI e seus reflexos, talvez nos déssemos conta de que somos tão pequenos que a maioria de nós não deixa nenhuma marca capaz de sobreviver tantos séculos. (não seria o mundo uma grande sala dos passos perdidos?)

            Só muito depois é que fui descobrir, através do Sob o Céu de Paris, que  o nome nada tem a ver com o fato de ser antigo: a tal salle des pas perdus é uma espécie de sala de espera que existe em espaços públicos, em geral burocráticos e administrativos (como a prefeitura ou o palácio de justiça), mas também em estações de trem, por exemplo. Como quem tem de esperar de pé por alguma coisa importante costuma andar de lá para cá, ficou o nome: é um lugar onde as pessoas, tendo de esperar, ficam andando, sem sair do lugar.

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          Desde o meu primeiro dia de intercâmbio que eu costumava comemorar cada conversa em que eu não tinha de pronunciar a palavra ‘pardon’ acompanhada de uma cara de ‘oi???’ por não ter entendido uma frase ou uma palavra que alguém tinha me dito. Mais para o final do ano, essas comemorações internas começaram a ficar cada vez mais frequentes, como também nem poderia deixar de ser. Eis que um dia eu tive de ir ao escritório do departamento de Letras para tentar resolver um problema com a minha nota, que não havia sido publicada por algum motivo (provavelmente só porque eu sou essa Thamires que vocês conhecem – ou não conhecem, mas talvez possam imaginar). Eu sempre fico nervosa em ter essas conversas mais oficiais em francês. Porque eu estou acostumada com o vocabulário informal e, para mim, mesmo agora, ainda é bem difícil falar formalmente enquanto estou lutando para achar uma palavra rápido. E acreditem em mim quando digo: eita povo para gostar de uma formalidade vocabular. Entrei na sala, resolvi o problema, entendi tudo, conjuguei o verbo certo, desejei bom dia e, já com a mão na maçaneta, estava começando a comemorar quando ouço o moço me dizer qualquer coisa que eu não entendi. Droga. Me desculpei, ele repetiu. Perguntei duas vezes: nada. Daí ele me explicou: ‘adeus’, vocês não falam assim no Brasil, como em Portugal? ‘Adeusinho’?

E a única palavra que eu não entendi na conversa, pois é – era português.

               Portugal sempre foi um país que eu queria muito visitar. Um pouco porque minha avó nasceu lá e minha mãe sempre comenta, um pouco por causa da cultura, da literatura, das cidades. Mas, enquanto estava fazendo meu intercâmbio, não pude evitar a impressão de que ele é um país absurdamente subestimado na Europa. Eu conheci diversas pessoas que já tinham visitado Londres, Amsterdam, Barcelona, mas nenhuma que tivesse visitado Lisboa. Quando decidi, finalmente, fazer a viagem, não consegui companhia. E quando louvei para uma amiga francesa as mil simpatias dos portugueses, ela me disse assim: sei lá, aqui a gente costuma dizer que português é encanador. (Não perguntei o que eles costumam dizer de brasileiros, mas respondi: e a gente costuma dizer que vocês não tomam banho! e mostrei a língua. Tudo mentalmente, claro).

            Mas fui. Sem companhia mesmo. E em momento nenhum me senti sozinha. De todos os lugares que já conheci, Portugal é um dos mais bonitos. Não só por causa das paisagens de tirar o fôlego, pelos versos do Fernando Pessoa na calçada à beira do Tejo, pelo pastelzinho de Belém original. Não só pelas ressonâncias metafóricas de eu ter visitado a cidadezinha em que nasceu a minha avó, cidade a que ela nunca voltou. Não só pelas muitas palavras que aprendi nesse idioma que é quase meu e que foi quase casa. Mas sim e talvez principalmente: pelas pessoas que encontrei nesta viagem. Ir para lá me fez acreditar, mais do que nunca, em uma verdade que eu já pressentia: quem só viaja geograficamente não sai do lugar. Vai-se muito mais longe quando se entra em contato com as pessoas e se conhece novos mundos através delas.

Agora que já tenho passagem de volta, a cada dia que passa eu tenho mais vontade de voltar. E a cada dia que passa eu tenho mais vontade de ficar. Acho que o dia da partida vai me rasgar em duas: duas metades de não-ser.

Toca o despertador: ele abre os olhos, levanta, se olha no espelho, se veste, pega o carro e sai para trabalhar. Everything is in its right place. Ele entra na Times Square, outdoors gigantes o rodeiam. Mas algo está errado: não há nenhum outro carro passando na avenida. Ninguém. Estranho – ele olha no relógio: nove da manhã. Mas não há ninguém. Então ele sai do carro, começa a andar, começa a correr, começa a gritar. (Ninguém)

Toca o despertador.

É assim que começa o que é um dos meus filmes favoritos, o Vanilla Sky. Eu sempre me identifiquei com o filme, mas essa identificação tem ficado cada vez maior agora que eu estou passando por essa experiência do intercâmbio: como se eu estivesse vivendo uma versão dessa cena de abertura toda vez que ando – agora mais uma vez, como no começo do ano – por uma cidade (quase) deserta de rostos conhecidos. Olham-me as pessoas por entre cercas, por trás de janelas, por cima de balcões – não muito diferentes das imagens nos outdoors da Times Square.

Além disso, da mesma forma que o personagem vive toda essa cena enquanto está dormindo, eu ainda tenho a sensação de estar em alguma espécie de sonho lúcido. Toda vez que ando pelo centro da cidade e vejo aquela igreja construída no século XI, por exemplo, tenho vontade de tocá-la. Sinto a vertigem de quem pressente que tudo a sua volta vai se dissolver por entre os dedos, como se o espaço em torno de mim fosse feito da mesma matéria que o tempo. Tem sido uma experiência incrível e inacreditável: viver o sonho e suas parcelas de pesadelo.

It’s been a brilliant journey of self-awakening. And now you’ve simply got to ask yourself this: what is happiness to you (…)?

(Há um deserto de respostas)

             Com o fim das aulas e o começo das despedidas, resolvi alugar uma bicicleta, mesmo sem saber andar muito bem. Comecei com uma pequena volta no quarteirão. E então duas, três. Aprendi a virar sem perder o equilíbrio. A tirar uma mão do guidão para tirar o cabelo do rosto. A olhar para trás sem cair. Passei pela provas finais e pelos adeuses. A sensação esquisita de ter escolhido ficar e ver os outros irem embora – ouvi dizer que andar de bicicleta faz bem ao coração.

             E.T. phone home. Pedalar pelo campus foi o jeito que encontrei de ir, mesmo ficando. E se ainda não é um jeito de chegar, não deixa de ser um jeito de me afastar das estranhezas e de me aproximar do resto. Um jeito de me quitar com o tempo e passar por ele quase tão rápido quanto ele insiste em passar por mim.

             Rodar por aí em um fim de tarde de primavera: taí um motivo suficiente para ser feliz. Dou voltas e voltas e a terra gira em torno de mim. E quando desço da bicicleta, as pernas pesadas de quem não sabe mais ter os pés no chão, ando feito um passarinho. Logo reaprenderei a andar porque – penso – (diferentemente de albatrozes ou extraterrestres) é aí que está o mal e a virtude dos seres humanos: acostuma-se ao peso do chão do mesmo jeito que se acostuma a (quase?) voar.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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