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Chegar a São Paulo de madrugada, vinda do outro lado do mundo (avesso do avesso do avesso do avesso) é como sair da escuridão noturna e pousar sobre o céu estrelado.

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                Confesso que ainda tenho minha conta ativada do Orkut e às vezes entro nela. Hoje foi uma dessas vezes: é uma sensação estranha e engraçada, de estar andando entre os destroços de uma casa ainda cheia de retratos (alguns rasgados, algumas molduras rachadas), mas vazia. É um lugar em que o tempo, ao contrário do que acontece no Facebook, passa muito devagar. É como aquela cena de Titanic em que a câmera vai entrando no navio já naufragado. É um lugar em que o tempo parou e só há resquícios, fantasmas. Mas eu gosto de lá, às vezes até escrevo em comunidades, é quase como escrever uma mensagem, colocar dentro de uma garrafa e jogar no mar.

No capítulo 21 de O Jogo da Amarelinha, livro que estou lendo agora, está escrito:

“A mesma coisa acontece a todo mundo, a estátua de Jano é um esbanjamento inútil, na realidade, depois dos quarenta anos nós temos o nosso verdadeiro rosto na nuca, olhando desesperadamente para trás.”

Não tenho muita certeza se, por já ter metade dos quarenta, meu segundo rosto já começou a nascer na minha nuca e, por isso, volta e meia eu tenho estes rompantes de nostalgia ou se, simplesmente, com meu rosto único, eu estou tão perdida que fico girando em torno de mim mesma sem saber exatamente qual é a frente e qual é a parte de trás, feito um cachorro correndo atrás do próprio rabo. É que, acho, quando a gente não sabe exatamente para onde ir, qualquer direção se faz caminho, mesmo a direção do regresso.

Minha vontade era a de ir sumindo, bem devagarinho, do mundo. Ir sumindo de mansinho, para não machucar nenhum coração com algum movimento brusco na hora de sair. Doses homeopáticas de minhas ausências para ir acostumando as pessoas, para ir acostumando a mim, até que a ausência não fosse mais vazio e sim simples não presença. Queria ir me misturando de tal forma às outras formas do mundo que qualquer pessoa para lembrar de mim precisasse fazer esforço. Queria que não existisse mais nenhuma lembrança pura de mim, queria que, para pensar em mim, as pessoas precisassem todas recorrer a um cheiro, a uma cor, a uma certa ocasião e que minha lembrança de tão misturada e confusa não pudesse suscitar certezas. Nem dúvidas. Apenas uma sensação engraçada de vaguidão, incompletude e faz-de-conta. Queria ir dissolvendo no ar até chegar àquele ponto bendito em que a gente não se dá mais conta da própria dissolução. Não quero mais desejar aquilo que está além de meu corpo, além da fronteira, além dos limites, além. Preciso que os outros me esqueçam para que eu possa esquecer de mim. Preciso me esquecer de mim para poder fugir dos outros, ciclo interminável de relacionamentos e laços que também são promessas (muitas vezes não cumpridas) de liberdade.

Perder o chão. Tem gente que paga por isso: pula de asa-delta, bungee-jumping, sky-coaster. Milhares de parques de diversões oferecendo brinquedos que fazem a gente subir subir subir, quase tocar o céu, só para depois cair e sentir o coração batendo batendo batendo em cada pedaço do corpo: peito cabeça ouvidosgargantadedãodopé, tudo se misturando na gente, resumindo a parte física do corpo a mil e uma sensações. O frio na barriga, o medo. Sensação do extremo da vida: e a adrenalina é uma dor que, de tanta, chega em alegria – acho que é ser triste do avesso.

Eu sempre fui uma criança medrosa. Aprendi há pouco tempo a andar de bicicleta, não subia em árvores, não andava de skate, chorava para subir no pônei do Magic City, segurava a bolsa de todo mundo nas excursões aos parques de diversões. Achava engraçado ficar vendo todas aquelas pessoas girando lá em cima e gritando e gostando e descendo daquela loucura tontos e felizes. Minha alegria sempre foi outra: inventar amigos, histórias, irmãos gêmeos malvados, lutar contra o crime, investigar casos dificílimos, fazer espetáculos de mágica, canto, dança para qualquer um que aparecesse lá em casa: queria ser escritora, mágica, atriz, detetive. O que eu quero dizer com isso é que minha felicidade sempre foi, de certa forma, dependente de mim e, de certa forma, inventada, mas sempre indireta. Sempre funcionou muito bem nos meus moldes, nas minhas regras, nesse mundo todo que eu criei, o chão que eu construí.

Perder o chão: perdi. E me acho sem jeito para conseguir encontrar a alegria desse jeito intermediado. Sou de novo aquela criança olhando para o brinquedo que gira lá no alto e pressentindo aquela tontura alegre que não sei se me é permitida.  E que nem sei se existe.

Agora que já tenho passagem de volta, a cada dia que passa eu tenho mais vontade de voltar. E a cada dia que passa eu tenho mais vontade de ficar. Acho que o dia da partida vai me rasgar em duas: duas metades de não-ser.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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