You are currently browsing the category archive for the ‘Se a vida fosse filme’ category.

Imagine por um segundo que Deus tenha criado o gato à Sua imagem.

O gato?

Sim, o gato. Depois de mil anos ou de alguns segundos, sei lá, Deus criou o homem.

O homem?!

Sim. Com o único objetivo de servir o gato e de ser seu escravo até o fim dos tempos.

Escravo?

Exatamente. Assim, Deus deu ao gato indolência e lucidez e, ao homem, neurose e paixão de construir e de possuir as coisas.

Sei.

Sabe nada. Assim, o homem só foi criado para se responsabilizar pela existência do gato. Tá entendendo?

Sim, sim, tô entendendo.

É isso. Toda a civilização que o homem construiu só teria um objetivo: oferecer ao gato conforto, comida e abrigo.

Ao gato?

Exatamente. Assim, o homem só teria inventado milhares de objetos para produzir outros objetos necessários ao bem-estar do gato. O pescador, o tapete, a almofada, o aquecedor, a tigela. Talvez também o rádio, porque os gatos gostam de música.

Fico feliz que você tenha resolvido o problema de quem nós somos e por que, fazia tempo que isso me perturbava.

Me perturbava também, mas tá vendo? Era só pensar um pouco.

_____

Cena de Eu te amo, eu te amo (Alain Resnais, 1968)

Mr-Nobody-FI

Nada é real. Tudo é possível.

Há menos de um mês, eu fiz 25 anos. Talvez seja uma bobagem – provavelmente é –, mas a verdade é que esse número, múltiplo de 5, um quarto de século, me deixou um pouco impressionada. A gente fica ano e anos fazendo aniversário, mas parece que só envelhece mesmo nesse números que são mais redondos. Tenho 25 anos: já sou adulta? Sou um ano mais velha do que a idade em que eu costumava imaginar que casaria quando era criança e fazia aquelas brincadeiras para saber como seria o meu futuro: fiz as escolhas certas?

large

“Enquanto você não escolhe, tudo continua possível”.

Às vezes, eu tenho a impressão de que as histórias todas se conectam de alguma forma. Foi o caso de quando calhei de assistir ao Sr. Ninguém (Jaco Van Dormael, 2009) pouco depois de ter lido Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Isso porque, se o romance conta a história de um homem imortal entre os mortais, em Sr. Ninguém acontece justamente o contrário: em uma sociedade do futuro, existe apenas um humano mortal em meio a uma humanidade que atingiu a imortalidade, e ele está prestes a morrer. O nome dele é Nemo Nobody, o Sr. Ninguém que dá título ao filme.

Mas o que me impressionou no filme foi diferente do que me impressionou no romance. No filme, a gente vê o outro lado da moeda: a vida de Nemo não é apenas o que aconteceu com ele, mas tudo aquilo que poderia ter acontecido. A vida de Nemo é a das possibilidades. Será que nesses 118 anos de vida ele seguiu os caminhos certos? Qual a importância de ser o último mortal da humanidade? A conclusão dele é a seguinte: “Todo caminho é o caminho certo. Tudo poderia ter sido qualquer outra coisa e teria sido igualmente importante”.

          Calma! Não pretendo fazer uma lista de 1001 filmes nem nada parecido. Nada de listas. Explico o clichê do título: a primeira vez que vi a célebre cena de Fred Astaire e Ginger Rogers dançando “Cheek to Cheek”  foi em uma cena de um outro filme: À Espera de um Milagre (Frank Darabont, 1999). Quem assistiu talvez lembre: nele, o último desejo de John Coffey, um condenado à morte, é assistir a um filme pela primeira vez. Nunca mais esqueci a cena. Se o que me marcou foi a comovente atuação de Michael Duncan assistindo à cena da dança, se foi a delicadeza da coreografia em preto-e-branco na tela ou a delícia da música que a acompanha, não sei. Talvez todas as alternativas estejam corretas, no final das contas. Mas só muito recentemente assisti à tal cena em seu filme original: Top Hat (Marck Sandrich, 1935) – O Picolino, no Brasil. (Mais alguém lembra logo de cara do pinguim friorento de Pica-pau ou será que sou só eu?)

          A história é bem simples e se baseia numa trama que é até bem batida em narrativas cômicas: aquela coisa de confusão sobre a identidade dos personagens. Dale, a mocinha vivida pela Ginger Rogers, confunde Jerry, interpretado pelo Astaire, com Horace – um homem que ela sabe muito bem ser casado. Jerry, então, passa o filme inteiro tentando conquistá-la, sem entender muito bem o porquê de receber foras e tapas na cara. O que eu mais gosto desses filmes mais antigos é desse humor leve, simples mesmo, que não precisa da apelação característica do humor de hoje. A gente ri daquele riso bobo de quem se apaixona: e, convenhamos, como não se apaixonar por Fred Astaire? (Uma pequena ressalva feita à fala, desnecessária, em que ele diz que lida com as mulheres como lida com cavalos. Oi, Jerry? Faz isso não.)

           Assim, apesar do plot não ter nada de muito original, são os detalhes que nos embalam. Deixo aqui a cena que me fez assistir ao filme, embora ela seja só uma das muitas cenas bonitas:

          Sempre fui muito ruim para classificar esse tipo de coisa e não saberia dizer se Top Hat é um dos melhores filmes que já assisti na minha vida. Aliás, muito provavelmente, ele não é. Apesar disso, eu acredito que o último desejo de John Coffey dificilmente poderia ter sido melhor atendido. Este filme me trouxe sensações que eu estenderia contente à eternidade. E, se Top Hat também tivesse de ser o último filme que eu veria antes de morrer, eu morreria com um sorriso dançando nos lábios e com o coração sapateando, leve, no peito – feliz.

Heaven, I’m in heaven… ♫

Toca o despertador: ele abre os olhos, levanta, se olha no espelho, se veste, pega o carro e sai para trabalhar. Everything is in its right place. Ele entra na Times Square, outdoors gigantes o rodeiam. Mas algo está errado: não há nenhum outro carro passando na avenida. Ninguém. Estranho – ele olha no relógio: nove da manhã. Mas não há ninguém. Então ele sai do carro, começa a andar, começa a correr, começa a gritar. (Ninguém)

Toca o despertador.

É assim que começa o que é um dos meus filmes favoritos, o Vanilla Sky. Eu sempre me identifiquei com o filme, mas essa identificação tem ficado cada vez maior agora que eu estou passando por essa experiência do intercâmbio: como se eu estivesse vivendo uma versão dessa cena de abertura toda vez que ando – agora mais uma vez, como no começo do ano – por uma cidade (quase) deserta de rostos conhecidos. Olham-me as pessoas por entre cercas, por trás de janelas, por cima de balcões – não muito diferentes das imagens nos outdoors da Times Square.

Além disso, da mesma forma que o personagem vive toda essa cena enquanto está dormindo, eu ainda tenho a sensação de estar em alguma espécie de sonho lúcido. Toda vez que ando pelo centro da cidade e vejo aquela igreja construída no século XI, por exemplo, tenho vontade de tocá-la. Sinto a vertigem de quem pressente que tudo a sua volta vai se dissolver por entre os dedos, como se o espaço em torno de mim fosse feito da mesma matéria que o tempo. Tem sido uma experiência incrível e inacreditável: viver o sonho e suas parcelas de pesadelo.

It’s been a brilliant journey of self-awakening. And now you’ve simply got to ask yourself this: what is happiness to you (…)?

(Há um deserto de respostas)

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

Twitter

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 7 outros seguidores