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A eles, com carinho.

Não sou Alice nenhuma: por todo lado o coelho me segue. Não quero olhá-lo, mas o que mais posso fazer se é seu brilho que me ilumina na solidão da noite escura? Tenho ouvido chamarem meu nome ao longo de todo esse dia e sequer enxergo quem me chama. Mas, atravessando a rua, senti: meu perfume com um cheiro que eu nem conheço mais.

Peço desculpas pela ausência: sei que, num mundo de vazios, qualquer palavra é consolo e companhia. Eu tenho estado leve e só não voo mais porque o sono tem me levado a sabe Deus que lugar sem sonhos. Tudo o que faço, então, é inventar o que vejo para que os outros acreditem que há esperança lá fora. Tudo é tão pouco, tão escasso, mas o nada é vasto e recobre a imensidão celeste e a finitude marítima. Eu corri, fugindo do que eu já sabia que me alcançaria, para contar: o mar é ainda maior do que o céu e os anjos estão todos submersos. Não sei o que significa, não me importo, já foi dito, posso parar de correr. Estou tão cansada. Quando eu parar, mais uma vez dormirei sem sonhos naquilo que vem antes do mundo, do verbo. É injusto e patético guardar tudo em frasquinhos, ainda que em troca de pão e carinho.

Não sou estrela nenhuma: meu suspiro luminoso só mostra aos navegantes o caminho da perdição. Atraio borboletas: as brancas e mortas compõem a minha coroa: faço o que posso para que seja a Morte uma de minhas súditas (para esconder a sete palmos que sou escrava de outras passagens, até mais cruéis).

Renuncio a meu trono de imperatriz. Renuncio ao mundo das delicadas colorações. Renuncio ao que sobra de mim após cada dia interminável tombando em cascata amarela – posso viver bem sem mim.

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Em mim, tudo o que é racional é a mais completa farsa montada pelo meu eu-profundo. E fujo tanto à minha própria compreensão que quase chego à conclusão de que não existo: antes, porém, procuro, penso, desenvolvo uma complexa cadeia de raciocínios lógicos para provar que estou errada e, mais uma vez, minto. Uma mentira repetida mil vezes vira verdade? Hesito na 999ª vez e recomeço: uma mentira nova, um novo conto, mais uma novela, página virada. Sou uma reprodução de mim e me pergunto se chego a ser o melhor de meus personagens. Ao que me respondo: sim. Novecentas e noventa e nove vezes.

Formigas. Uma, duas, três. Formiga formiga formiga: em fila para não sei que lugar. Queria ser pequenina e me juntar a elas. Formiga formiga eu formiga. Rumo a doçuras várias. Açúcares, balas, melado de achocolatado na mesa. Em fila: um, dois, um, dois. Escalando o armário, subindo, subindo, subindo sem fim.

(Na casa ao lado, há uma menina que joga água nas formigas e as assiste morrer. Água com açúcar não acalma e a pia vira mar. Já as aconselhei, mas nenhuma delas me ouve – ouvi dizer que as formigas são surdas).

Falta pouco, acho que já estou até diminuindo. Enquanto ainda posso ouvir, diga-me uma palavra doce para que eu não precise enfrentar os perigos da pia, dos pés humanos, das coisas tão maiores que eu e que eu não entendo. Diga-me uma palavra para que eu me baste humana e não precise virar mais nada. Esconda o segredo mágico e deixe-me viver mais um pouco nesse mundo que não é meu!

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(Porque estou diminuindo e, se ainda ouço, é porque meu silêncio procura sua voz).

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(29/6/2009)

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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