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[…] Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. pág. 327)

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“Te parecia que caminhávamos juntos? Que algumas vezes subíamos? Fico me perguntando como foi possível ter imaginado que era a mesma paisagem o que nós dois víamos, mácula lútea                     Quê?                    Mancha amarela                               Quê?                    Fovea centralis, poço central, é um estudo sobre os olhos, sobre os nossos olhos, sabe, o de todos.                              Ahn.                      Os olhos de todos de matéria igual, mas a carne do que eu vejo, a envoltura, o espesso que os meus olhos atravessam, nada igual, ainda que os teus olhos se mantenham na mesma direção do meu desejo, lâmina de ágata colocada à tua frente, transparência plúmbea, carne de pedra eu digo, e a palavra me distancia no mesmo instante em que repito carne de pedra e não estou mais ali, nem sou, nem vejo, porque o vínculo se quebra quando repito língua intumescida: carne de pedra. Tadeu comungado no mesmo existir duro da pedra e ainda assim Tadeu distanciado, te vejo, nos vemos, mas tudo é absolutamente desigual, e isso repito e repenso porque parece maldito o meu olhar.”

(Hilda Hilst, Tu não te moves de ti. São Paulo: Editora Globo, 2004. pág. 27).

Assovia o vento dentro de mim.

Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

 (Eduardo Galeano, “A ventania” in O Livro dos Abraços, pág. 270)

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Pequeno aviso: quartas-feiras (supondo que meu Beda sobreviva até a próxima) serão os dias dos trechos por motivos de: acordo muito cedo na quinta. Não estou roubando! nem vem.

(…) Não! Já tomei minha decisão: se eu for a Mabel, vou ficar aqui mesmo! E não vai adiantar nada eles enfiarem as suas cabeças aqui e me chamarem: “Suba de volta, queridinha”, pois vou olhar para cima e dizer: “Quem sou eu então? Digam primeiro quem eu sou”. E daí, se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo; se não, vou ficar é bem aqui, até que eu vire outra pessoa. Mas, puxa vida! Bem que eu gostaria que alguém enfiasse a cabeça aqui. Estou tão cansada de ficar sozinha neste lugar…

(Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de Nicolau Sevcenko, pág. 26)

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Pequeno aviso: quartas-feiras (supondo que meu Beda sobreviva até a próxima) serão os dias dos trechos por motivos de: acordo muito cedo na quinta. Não estou roubando! nem vem.

Smashing_Pumpkins_-_Mellon_Collie_And_The_Infinite_SadnessO que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Esses discos todos transformam você numa pessoa melancólica?*

É a pergunta que o Rob Gordon faz logo no começo de Alta Fidelidade, escrito pelo Nick Hornby (que depois virou filme dirigido pelo Stephen Frears). É engraçado, mas músicas têm um papel meio ambíguo na minha vida: não é uma atividade que eu não consigo fazer isolada das outras. Diferente de ler um livro ou assistir a um filme, que me fazem parar tudo o que eu estiver fazendo, eu sempre acabo colocando uma música para me acompanhar em alguma outra atividade (nunca andando na rua, porque fones de ouvido me dão uma impressão muito forte de que eu vou morrer atropelada). Se esse hábito, por um lado, talvez acabe desmerecendo um pouco o papel da música na minha vida, por estar quase sempre em plano secundário, algumas músicas acabam ficando tão intimamente relacionadas a um momento ou a uma pessoa, que muitas delas acabam guardando mesmo uma carga emocional mais alta do que a maioria dos livros que li ou dos filmes que vi.

“Mellon Collie and the Infinite Sadness” foi uma música que me pegou logo de cara. Sabe começar a ouvir uma música e sentir uma espécie de arrepio? Eu acho ela tão bonita. Eu sou uma pessoa muito apegada a palavras e não consigo me desvencilhar do título da música (já que a música não tem letra). Ela é a música de abertura do álbum de mesmo nome do Smashing Pumpkins e acho que não teria forma mais bonita de começar um álbum que é tão bacana. É um álbum duplo: o primeiro disco é o Dawn to dusk (Amanhecer ao anoitecer) e o segundo é o Twilight to starlight (Crepúsculo à luz das estrelas).

A música é essa:

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*HORNBY, Nick. Alta fidelidade. Rio de Janeiro, Rocco: 1998. pág. 28.

“(…) É tão triste ouvir o cínico Horacio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiquidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isso dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu pareces oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa da cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem, porque não é gratuito.

Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra aos atos, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto.”

 

(Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. Tradução de Fernando de Castro Ferro, pp. 482-483)

“Não, mas pensando francamente, o mais absurdo dessas vidas que pretendemos viver é seu falso contato. Órbitas separadas, de vez em quando duas mãos que se apertam, uma conversa de cinco minutos, um dia nas corridas de cavalos, uma noite na ópera, um velório onde todos se sentem um pouco mais unidos (e é certo; mas a hora da união se acaba depressa). E, ao mesmo tempo, vive-se convencido de que os amigos existem, de que o contato existe, de que os acordos ou os desacordos são profundos e permanentes. Como nos odiamos todos, sem saber que carinho é a forma presente desse ódio, e como a razão do ódio profundo é esta descentração, o espaço intransponível entre uma pessoa e outra, entre isto e aquilo. Todo carinho é uma patada ontológica, sim, uma tentativa de apoderar-se daquilo que é inapoderável (…)”.

(Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. Tradução de Fernando de Castro Ferro, pág. 447)

“O homem, mesmo envilecido pelo neocapitalismo e o pseudo-socialismo de nossos dias, é um ser maravilhoso porque, às vezes, fala. A linguagem é a marca, o sinal – não de sua queda e sim de sua essencial irresponsabilidade. Pela palavra podemos ter acesso ao reino perdido e recuperar os antigos poderes. Esses poderes não são nossos. O inspirado, o homem que fala de verdade, não diz nada que seja seu: por sua boca fala a linguagem. (…) A poesia não salva o eu do poeta: dissolve-o na realidade mais vasta e poderosa da fala.”

“(…) O outro, nosso duplo, nega a ilusória coerência e segurança de nossa consciência, esse pilar de nuvem que sustenta nossas arrogantes construções filosóficas e religiosas. Os outros, proletários e escravos coloniais, mitos primitivos e utopias revolucionárias, ameaçam com não menor violência as crenças e instituições do Ocidente. A uns e outros, a Fourier e ao papua da Nova Guiné Breton estende a mão. Rebelião e revelação, linguagem e paixão, são manifestações de uma realidade única. O verdadeiro nome dessa realidade também é duplo: inocência e maravilha. O homem é criador de maravilhas, é poeta, porque é um ser inocente. As crianças, as mulheres, os enamorados, os inspirados e mesmo os loucos são a encarnação do maravilhoso. Tudo o que fazem é insólito e não o sabem. Não sabem o que fazem: são irresponsáveis, inocentes. Ímãs, pára-raios, cabos de alta-tensão: suas palavras e seus atos são insensatos e, não obstante, possuem sentido. São signos dispersos de uma linguagem em perpétuo movimento e que desdobra diante de nossos olhos um leque de significados contraditórios – resolvido, por fim, em um sentido único e último. Através deles e neles o universo nos fala e fala consigo mesmo.”

(* E com o lindo do Octavio Paz, no texto “André Breton ou a Busca do Início” in Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, 2006)

“Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Machado de Assis, segundo capítulo de Dom Casmurro. 

“Na ponta de cada galho havia um figo maduro – um maravilhoso futuro. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos; outro, ser uma poeta famosa; outro, uma professora ilustre e mais outro era ser Éxis, a incrível editora; outro, conhecer a Europa, África e América do Sul e ainda outro era Constantin, Sócrates, Átila e um monte de outros namorados com nomes estranhos e profissões esdrúxulas; e um figo era ser campeã olímpica de equipe de remo e além desses tinha tantos outros figos que eu não conseguia nem ver.

Imaginei que estava sentada embaixo da figueira, morrendo de fome por não decidir que figo escolher. Queria todos, mas, escolhendo um, não podia pegar os outros e, enquanto ficava sentada ali, incapaz de resolver, os figos começaram a amadurecer, apodrecer e cair aos meus pés.”

Sylvia Plath. A Redoma de Vidro. (página 86 da edição da Editora Record)

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E eu não acrescentaria nem mais uma vírgula.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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