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Cem-anos1Eu não sou lá muito de acreditar em destino. Mas às vezes acredito um pouquinho por causa de livros como esse. Estava eu lá: malzona, no meio de um tour ao porão do fundo do poço que virou minha vida (acalma o drama aí, miga, volta) e aí vem esse livro. Que eu até já tinha lido e por isso nem estava pensando em ler de novo assim tão por agora: lá pelos meus 13/14 anos (sabe-se lá), fui passar um tempo na casa de uma tia, que olhou para a minha cara de entediada e disse: “ah, cê gosta de ler? Toma esse livro aqui e para de me encher o saco” (a última parte ela não disse). E eu li mesmo e lembro de ter gostado. Tanto tempo depois lembrava só vagamente de tantos Aurelianos e das páginas e páginas que eu tive que ler duas vezes porque achava que estava lendo sobre um personagem, mas descobria lá na frente que na verdade era outro.

Mas acabou que resolvi participar de um Clube de Leitura que ia discutir esse livro. Decidi assim: duas semanas antes, passei na livraria, não achei o livro, perguntei pra vendedora, encontraram um no estoque. Comecei a ler. E o livro me agarrou de uma tal forma, desde as primeiras linhas, que eu tinha que me puxar de volta pelo cangote, saindo forçada de Macondo (a cidade onde se passa a história).

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. (p. 43)*

Primeiro porque é impossível não se envolver com a história da família Buendía, tão enredada nela mesma que se desenrola em espirais, e não acabar torcendo para que o personagem que tem a solidão mais parecida com a nossa consiga alguma paz, algum sucesso. Para mim foi assim: mesmo do lado de fora do livro, a história me prendeu tanto, que era um pouco como se, se aquele personagem conseguisse ser feliz afinal, eu também pudesse conseguir.

Poucos meses depois, diante do pelotão de fuzilamento, Arcádio haveria de reviver os passos perdidos na sala de aula, os tropeços contra as carteiras, e por último a densidade de um corpo nas trevas do quarto e o latejar do ar bombeado por um coração que não era o dele. Estendeu a mão e encontrou outra mão com dois anéis num mesmo dedo e que estava a ponto de naufragar na escuridão. Sentiu a linha de suas veias, o pulso do seu infortúnio, e sentiu a palma úmida com a linha da vida truncada na base do polegar pelo bote da morte. (p. 153)

Não é novidade nenhuma dizer, até pelo título do livro, que Cem Anos de Solidão é uma história sobre diferentes modos de ser sozinho. Sobre a incomunicabilidade que está sempre à espreita nas relações humanas. A começar pelo patriarca da família, José Arcádio Buendía, por exemplo, que por mais que tenha um elevado senso de comunidade (foi ele, principalmente, que fundou Macondo e fez questão de organizar as casinhas de modo que todas ficassem à mesma distância do rio), acaba sendo incompreendido por buscar o conhecimento e o mar. E é um pouco como se todos os personagens ficassem dando voltas em torno deles mesmos, sem conseguir achar saídas. O que pode parecer bem triste – e, a bem da verdade, é. Mas tudo isso é mostrado de um jeito muitas vezes muito leve e cheio – cheio, cheio – de imagens bonitas e leves, mesmo quando trata da morte, distante a princípio, mas cada vez mais próxima da experiência dos personagens.

(…) Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram através da janela que estava caindo uma garoa de minúsculas flores amarelas. Caíram a noite inteira sobre o povoado numa tempestade silenciosa, e cobriram os telhados e tamparam as pontas e sufocaram os animais que dormiam na intempérie. Tantas flores caíram do céu, que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e foi preciso abri-las de novo com pás e ancinhos para que o cortejo pudesse passar. (p. 180)

(…) Naquela noite, a guarda fulminou Mauricio Babilônia quando ele erguia as telhas para entrar no banheiro onde Meme esperava, nua e tremendo entre os escorpiões e as borboletas, como tinha feito quase todas as noites dos últimos meses. (p. 327)

Mas vai ficando cada vez mais claro que não é só a história de uma família, mas a história da própria América Latina. No discurso que o Gabo fez quando ganhou o Nobel, ele explica:

Eu me atrevo a pensar que é esta realidade descomunal, e não só a sua expressão literária, que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, pleno de desdita e beleza, e do qual este colombiano errante e nostálgico não passa de uma cifra assinalada pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência de recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão. (p. 10)

E, de fato, o mais inacreditável talvez não sejam as flores que chovem com a morte de um personagem ou os tapetes voadores trazidos pelos ciganos, mas a luta sangrenta entre os liberais e os conservadores; os ditadores que aparecem para governar Macondo, que estava tão bem governando a si mesma; os estrangeiros que chegam a Macondo para tirar lucro da plantação de bananas e que massacram seus trabalhadores e vão embora, deixando uma chuva devastadora que cobre todos os rastros de sangue que eles deixaram para trás. Pois é, qualquer semelhança com a nossa história e de nossos vizinhos latinos não é mera coincidência.

Como eu disse, eu não sou muito de acreditar em destino. Mas que bom, que bom que esse livro me encontrou quando eu estava precisando tanto de companhia, de fantasia, de identificação, de poesia. Eu terminei de ler o livro no chão da Livraria Cultura, vinte minutos antes do Clube de Leitura e chorei no final. Porque é um livro tão lindo, meus amigos, tão lindo. E é uma raridade, um presente mesmo, esbarrar com algo que desperte na gente essa paixão, essa vontade de chorar de tristeza (por ter acabado), de felicidade (por ter vivido a experiência) e pura e simplesmente de beleza.

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  • Gabriel García Márquez. Cem Anos de Solidão. Editora Record, 2015. Tradução de Eric Nepomuceno.
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[…] Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. pág. 327)

Michel_Laub_Diario_queda_133 1.

“Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve”.*

 

2.

A primeira vez que fiquei com vontade de ler O Diário da Queda, apesar de já ter ouvido falar muitíssimo bem, foi quando uma professora leu partes do primeiro capítulo e contou um pouco da história: sobre um menino não judeu que, por estudar em uma escola judia, resolveu fazer um bar mitzvah. Os meninos judeus não gostavam dele, mas mesmo assim ele convidou a todos. Era comum, nessa festa, jogar o aniversariante 13 vezes para cima, número que correspondia ao número de aniversários que a pessoa estava fazendo.  Assim fizeram com o menino não judeu, mas, na décima terceira vez, resolveram jogá-lo para o alto e deixá-lo cair no chão. A professora não contou mais nada, mas imaginar aquele menino sendo jogado para cima, feliz, no dia do aniversário dele, de repente caindo no chão, no meio de todos os convidados me deixou imensamente triste e eu nem sei bem o porquê.

 

3.

Mas talvez meu interesse pelo livro tenha começado antes, no começo do ano, quando comecei a fazer Literatura Judaica Moderna na faculdade e fui me apaixonando pelas histórias, pelos livros, pelo simbolismo. Por essa ser uma das poucas matérias que me permitiram (e incentivaram) que eu dissesse para a sala inteira o que eu achava de tal e tal livro sem me sentir morta de vergonha ou exposta. Por o meu professor falar dos livros com pose de quem está declamando poemas.

 

4.

O livro tem duas características que fazem dele ainda mais interessante: a primeira é que ele é composto por pequenos capítulos, fragmentos numerados, que dão uma agilidade enorme à leitura, por mais pesada que às vezes a história seja.

 

5.

Era uma quinta-feira de muito sol, o ônibus estava cheio e eu comecei a chorar lendo uma das últimas partes do livro. E tive de parar de ler.

 

6.

“Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’. […] Foram justamente as privações, as pancadas, o frio, a sede que, durante a viagem e depois dela, nos impediram de mergulhar no vazio de um desespero sem fim. Foi isso. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: dela poucos homens são capazes, e nós éramos apenas exemplares comuns da espécie humana.”**

 

7.

Ou talvez o interesse tenha vindo um pouco antes, quando me deparei com o fato de que não faz assim tanto tempo que acabou a Segunda Guerra, que há milhares de marcas dela em toda parte da Europa, principalmente na Alemanha, na Polônia, na República Tcheca, na Áustria. E com a visão de todos aqueles sapatos que me fizeram me arrepender de ter viajado até ali.

 

8.

A outra coisa que é interessante no livro é que ele conta, na verdade mais duas histórias junto com aquela do menino não judeu no bar mitzvah: a do Holocausto e a relação do narrador com o seu pai (e com o pai dele). É sobre culpa e memória.

 

9.

O Primo Levi foi um dos sobreviventes de Auschwitz. Ele era químico, mas depois de tudo, ele escreveu um livro sobre tudo o que ele passou, chamado É isto um homem?. Mas ele também escreveu muito outros livros sobre o assunto. A lembrança que vem e volta.

 

10.

O Diário da Queda acabou e eu fiquei meio sem saber o que fazer com ele. Por isso esse texto sem pé nem cabeça depois de tanto tempo, também. O que eu posso dizer no final das contas é: se você for ler um livro contemporâneo brasileiro, esse aqui pode ser uma ideia muito boa. É o livro que eu recomendaria.

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* Michel Laub. O Diário da Queda. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. pág 8.

** Primo Levi. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. pág. 18.

“Te parecia que caminhávamos juntos? Que algumas vezes subíamos? Fico me perguntando como foi possível ter imaginado que era a mesma paisagem o que nós dois víamos, mácula lútea                     Quê?                    Mancha amarela                               Quê?                    Fovea centralis, poço central, é um estudo sobre os olhos, sobre os nossos olhos, sabe, o de todos.                              Ahn.                      Os olhos de todos de matéria igual, mas a carne do que eu vejo, a envoltura, o espesso que os meus olhos atravessam, nada igual, ainda que os teus olhos se mantenham na mesma direção do meu desejo, lâmina de ágata colocada à tua frente, transparência plúmbea, carne de pedra eu digo, e a palavra me distancia no mesmo instante em que repito carne de pedra e não estou mais ali, nem sou, nem vejo, porque o vínculo se quebra quando repito língua intumescida: carne de pedra. Tadeu comungado no mesmo existir duro da pedra e ainda assim Tadeu distanciado, te vejo, nos vemos, mas tudo é absolutamente desigual, e isso repito e repenso porque parece maldito o meu olhar.”

(Hilda Hilst, Tu não te moves de ti. São Paulo: Editora Globo, 2004. pág. 27).

41P3GF4mwrL._SY344_BO1,204,203,200_Acho que não é muito segredo para ninguém o quanto eu fiquei completamente apaixonada pelos Miseráveis. Esse mês, resolvi ler um outro calhamaço (embora seja até que bem pequeno, comparado aos Miseráveis) do Victor Hugo: O Corcunda de Notre-dame ou Notre Dame de Paris, que foi o título original. Quando comecei a ler, ainda não tinha assistido ao desenho da Disney, então achei que, bom, se tinha desenho da Disney, não era possível que fosse um livro assim tão pesado. No que eu me enganei bastante.

corA história se passa na Idade Média e, como em Os Miseráveis, entrelaça diversos personagens: o poeta atrapalhado Gringoire, que acaba por se juntar ao grupo dos marginais da cidade; a encantadora Esmeralda, uma cigana belíssima que dança e apresenta os truques de sua cabra Djali pelas ruas; Cláudio Frollo, o abade da Notre-Dame, bom o suficiente para salvar da morte, quando bebê, a criança deformada que aparece no cesto das crianças abandonadas da igreja, mas que é capaz de atrocidades por ser torturado pela paixão que sente por Esmeralda; Quasímodo, a tal criança deformada, que, adulto, passa a ser o sineiro da Notre-Dame e que, por causa disso, fica surdo, além de ser corcunda, de ter uma verruga horrível acima de um dos olhos e de ser manco (e que, claro, também se apaixona por Esmeralda) e Phoebus, por quem Esmeralda se apaixona, mas que já está noivo e que, pra falar a verdade, só queria levar Esmeralda pra cama.

802967Como indica o nome original, a catedral de Notre-Dame acaba sendo, também, personagem importantíssimo da história. É nela – ou bem perto dela – que acontecem os momentos mais dramáticos do enredo. Isso porque o livro de Victor Hugo tinha o propósito de tentar impedir que ela fosse derrubada (porque, na época que o livro foi escrito, ela já estava bem acabadinha por causa das guerras napoleônicas) e de denunciar o descuido com esse monumento que foi, por muito tempo, o mais alto da cidade de Paris e que presenciou tanto de sua história. O livro sensibilizou o público e deu força a um movimento popular de preservação da catedral: vejam vocês, o romance salvou a catedral que, hoje, é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade.

Os três personagens principais, Esmeralda, Frollo e Quasímodo, guardam algumas semelhanças com a própria catedral: da mesma forma que ela é um local sagrado e onde se vai para chegar aos céus, ela também tem um lado sombrio, é o local da queda, até mesmo por conta das gárgulas (que no desenho da Disney são fofinhas e ajudam o Quasímodo <3). Esses personagens também oscilam, de alguma forma, entre o bem e o mal e os três são personagens de alguma forma torturados.

Se nThe_Hunchback_of_Notre_Dame_wallão tão tocante ou tão apaixonante quanto Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame é, com certeza, um livro muito mais sombrio. No desenho da Disney, as coisas são bastante amenizadas e até simplificadas: nele, Frollo é só ruim e Phoebus é só bom, por exemplo. A Esmeralda do desenho também me pareceu uma personagem bem mais interessante: mais ousada, mais autossuficiente e bem menos romântica do que a do livro. O final do desenho, já aviso, é bem diferente do final do livro. Mas os acontecimentos principais estão lá e é um desenho muito gostoso de assistir.

Assovia o vento dentro de mim.

Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

 (Eduardo Galeano, “A ventania” in O Livro dos Abraços, pág. 270)

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Pequeno aviso: quartas-feiras (supondo que meu Beda sobreviva até a próxima) serão os dias dos trechos por motivos de: acordo muito cedo na quinta. Não estou roubando! nem vem.

gatsby          Depois de ter lido Este Lado do Paraíso, o primeiro livro de Fitzgerald, fiquei um pouco receosa em começar o Gatsby. Não porque eu não tenha gostado do Este Lado…, gostei, mas do mesmo jeito que eu gosto de alguns filmes franceses: achando tudo muito bem feito e inteligente, mas sem conseguir me relacionar de verdade com a história ou com qualquer um dos personagens. Quando descobri que, no Gastby, o personagem principal era um homem rico que dava festas, fiquei pensando que ele seguiria na mesma linha do primeiro. E foi quase um susto perceber o quão errada eu estava.

 O Grande Gatsby é um livro lindamente bem escrito e que me prendeu logo de cara. Nele, o narrador, Nick, conta a história que viveu quando se mudou para o East Egg. Sua prima, Daisy Buchanan, morava do outro lado da baía, no West Egg, com seu esposo podre de rico, Tom Buchanan. Seu vizinho no East Egg era o tal do Gatsby do título, que morava em uma mansão e dava festas incríveis. Nick fica encantado com tudo o que Gastby representa: as grandes festas, a riqueza e o sonhos. É assim que Nick descreve Gatsby, como um sonhador, alguém com um dom natural para a esperança.

Ao longo do livro, a gente descobre que o Gatsby foi um homem que se reinventou completamente: na verdade, ele nasceu em uma família pobre e seu nome verdadeiro sequer era Gatsby. A grande mudança na vida dele ocorreu quando, ainda jovem, ele apaixonou-se por Daisy e foi impedido de casar com ela por ser apenas um soldado, por não ter dinheiro, por ser um Zé Ninguém perto do Tom. Depois de ter ficado rico, ele passa muitas noites olhando para a luz verde emitida pelo lado da baía em que fica a casa de Daisy e todas as festas extravagantes dadas por ele nada mais eram do que uma tentativa de chamar a atenção dela.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã…

E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado. (pág. 140)*

Por um lado, a história deixa que o leitor passe a questionar um pouco essa grandeza atribuída a Gatsby pelo título. Aquele homem cheio de maneirismos e sempre cercado de tantas pessoas que ele mal conhecia (e vice-versa) quando a única pessoa cuja proximidade ele queria não está ali – será que ele pode mesmo ser considerado grande? Por outro lado, como não se identificar de alguma forma com esse protagonista que passa uma vida inteira tentando remendar o passado e cuja patética busca por uma salvação (no caso dele, encarnada pela luz verde no outro lado da baía e pela esperança de reconquistar a Daisy) e inabalável esperança são, talvez, o que há de mais humano em todos nós?

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*FITZGERALD, F. Scott. O Grande Gatsby. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. Tradução de Vanessa Bárbara.

(…) Não! Já tomei minha decisão: se eu for a Mabel, vou ficar aqui mesmo! E não vai adiantar nada eles enfiarem as suas cabeças aqui e me chamarem: “Suba de volta, queridinha”, pois vou olhar para cima e dizer: “Quem sou eu então? Digam primeiro quem eu sou”. E daí, se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo; se não, vou ficar é bem aqui, até que eu vire outra pessoa. Mas, puxa vida! Bem que eu gostaria que alguém enfiasse a cabeça aqui. Estou tão cansada de ficar sozinha neste lugar…

(Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de Nicolau Sevcenko, pág. 26)

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Pequeno aviso: quartas-feiras (supondo que meu Beda sobreviva até a próxima) serão os dias dos trechos por motivos de: acordo muito cedo na quinta. Não estou roubando! nem vem.

Smashing_Pumpkins_-_Mellon_Collie_And_The_Infinite_SadnessO que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Esses discos todos transformam você numa pessoa melancólica?*

É a pergunta que o Rob Gordon faz logo no começo de Alta Fidelidade, escrito pelo Nick Hornby (que depois virou filme dirigido pelo Stephen Frears). É engraçado, mas músicas têm um papel meio ambíguo na minha vida: não é uma atividade que eu não consigo fazer isolada das outras. Diferente de ler um livro ou assistir a um filme, que me fazem parar tudo o que eu estiver fazendo, eu sempre acabo colocando uma música para me acompanhar em alguma outra atividade (nunca andando na rua, porque fones de ouvido me dão uma impressão muito forte de que eu vou morrer atropelada). Se esse hábito, por um lado, talvez acabe desmerecendo um pouco o papel da música na minha vida, por estar quase sempre em plano secundário, algumas músicas acabam ficando tão intimamente relacionadas a um momento ou a uma pessoa, que muitas delas acabam guardando mesmo uma carga emocional mais alta do que a maioria dos livros que li ou dos filmes que vi.

“Mellon Collie and the Infinite Sadness” foi uma música que me pegou logo de cara. Sabe começar a ouvir uma música e sentir uma espécie de arrepio? Eu acho ela tão bonita. Eu sou uma pessoa muito apegada a palavras e não consigo me desvencilhar do título da música (já que a música não tem letra). Ela é a música de abertura do álbum de mesmo nome do Smashing Pumpkins e acho que não teria forma mais bonita de começar um álbum que é tão bacana. É um álbum duplo: o primeiro disco é o Dawn to dusk (Amanhecer ao anoitecer) e o segundo é o Twilight to starlight (Crepúsculo à luz das estrelas).

A música é essa:

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*HORNBY, Nick. Alta fidelidade. Rio de Janeiro, Rocco: 1998. pág. 28.

(155622-gfObs.: se eu não dormi, ainda é dia!)

Às vezes, nesses momentos de rara felicidade, a gente lê um livro que causa uma impressão tão forte na gente, que parece que muda tudo e que faz a gente ficar morrendo de vontade de ter com quem conversar.

Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir, foi esse livro para mim. Fazia algum tempo que eu não lia algo que me fazia ficar tão pensativa e cuja leitura, tenho a impressão, mudou qualquer coisa em mim, na maneira como eu vejo o mundo. A vida.

O livro é basicamente a história de Fosca, um homem que, em 1300, chega ao poder de uma cidadezinha italiana, Carmona. Nessa cidade, os governantes eram mortos com muita frequência: seja por alguém que queria o poder para si, seja pelo povo que não estava satisfeito com seu governante. Fosca sabia que, no poder, sua vida teria os dias contados. Mas ele não queria morrer. Ele não queria, não queria, porque ele era jovem e era tão apaixonado por sua Carmona, que ele queria ter todo o tempo do mundo para melhorá-la, para fazê-la ascender mais alto do que todas as cidades do mundo.

Um dia, entre as pessoas condenadas à pena de morte, surge um senhor, quase um mendigo, dizendo para Fosca que ele tinha o remédio, que ele o trocaria pela sua vida. Remédio? Sim, o remédio para a morte, uma poção de imortalidade. Fosca logo acha estranho: e você tem a tal poção, por que não a tomou você mesmo? Por que está aí me implorando pela sua vida? Não seria um veneno? Ao que o senhor responde que a imortalidade não é uma bênção, mas uma maldição.

Fosca não dá muita bola. Toma a tal poção. Torna-se imortal.

E aí a gente acompanha a história dele até o século XX. E a forma como, dessa posição de semideus, Fosca é completamente isolado dos outros seres mortais. Dos outros humanos, que ele passa a ver como moscas – vidas tão curtas, insignificantes. Uma vez ou outra ao longo desses séculos de vida ele consegue vislumbrar a particularidade, o brilho nos olhos de uma pessoa, que a torna tão diferente de todas as outras. Ele se apaixona. Ele faz grandes amigos. E os vê, não sem pena, morrer, sem poder fazer nada por eles.

J’entrais dans la cathédrale et je regardais les dalles sous lesquelles gisaient les princes de Carmona; sous la voûte la voix du prêtre avait murmuré : « Qu’ils reposent en paix. » Ils reposaient en paix. Et moi j’étais mort, mais j’étais encore là, témoin de mon absence. Je pensais : « Il n’y aura jamais de repos. » (pág. 280)*

(Eu entrava na catedral e olhava as lajes sob as quais jaziam os príncipes de Carmona; sob a abóbada a voz do padre murmurou: “Que eles descansem em paz.” Eles descansavam em paz. E eu estava morto, mas ainda estava aqui, testemunha de minha ausência. Eu pensava: “Nunca haverá descanso.”) **

Do ponto de vista dessa imortalidade, todas as vidas são praticamente iguais. Todos os dias são o mesmo dia que se repete sem fim. Tudo perde o sentido: para que construir se em pouco tempo será destruído? Para que se aproximar das pessoas se elas logo morrerão?

Ao lado de soldados, de revoltosos das revoltas de 1830 na França, ele percebe que as pessoas arriscam suas vidas, muitas vezes (paradoxalmente), para se sentirem vivas. Coisa que ele nunca poderia fazer: ele não tinha mais medo. Podendo fazer qualquer coisa, ele não tinha vontade de fazer nada. Não precisando ter medo da morte, ele não se sentia vivo. (Talvez, em alguma medida, aquela poção fosse mesmo um veneno. A imortalidade acaba se mostrando mesmo ser uma maldição).

É um livro lindo sobre vida e morte. Sobre significação e insignificância. Sobre como a morte é o sentido da vida (ou, pelo menos, é a responsável para que a vida tenha algum sentido).

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* BEAUVOIR, Simone de. Tous les hommes sont mortels. Folio Gallimard, 2011.

** Tradução chinfrim minha.

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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