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Este é o centésimo post deste blog. Fosse um supermercado, talvez tocassem sirenes, caíssem confetes, saísse uma voz dos autofalantes, eu ganhasse um cheque maior do que o meu tamanho (e eu sou dez centímetros mais alta do que a média feminina nacional!) e tirasse foto com todos os funcionários. Mas não.

Até porque tem menos a ver com sorte do que com falta do que fazer com não desistência. Com coceirinha na ponta dos dedos. Com a empolgação e o medo trazidos pela página em branco (as do Word, na minha opinião, mil vezes mais assustadoras do que as de cadernos).

Este é o último post do BEDA também. Deu certo. Vocês acreditam? Porque eu não. Não muito. Eu sou ruim com essas coisas. Mas deu certo e aqui estou eu: escrevendo nada com nada no trigésimo dia do mês.

Vou contar para vocês: foi bem cansativo e teve dias em que eu pensei em simplesmente não postar nada e pronto. (quem acompanhou os 100 Happy Days no Instagram sabe como eu terminei só depois de muitos trancos e barrancos). Mas foi muito bacana também, porque eu escrevi sobre coisas que eu provavelmente não teria escrito em outra circunstância. Porque me ajudou também naquela missão meio grupo de suporte anônimo: um dia de cada vez.

Eu muito provavelmente teria jogados os posts todos para o alto também se não fossem os comentários e os incentivos. Brigada por me acompanharem nesses trinta dias. Mesmo. (:

Eu já disse o quão eu estou surpresa por ter dado certo??? Weeeee! o/

O final do primeiro ano de Letras, na minha faculdade, é a hora de escolher a habilitação. Linguística, Inglês, Hebraico, Armênio, Russo, Alemão… as opções são várias, cada uma lá com o seu atrativo. Eu entrei no curso pensando em fazer Inglês, mas no final do ano já estava acabando o cursinho e estava tão cansada da língua depois de dois intensivos, que mudei de ideia. Eu tinha acabado de descobrir Cortázar e Borges e estava pendendo para o Espanhol, embora sempre tenha achado Francês uma língua linda.

Um dia, estava sem o que fazer na internet e fui entrando de perfil em perfil no Orkut. De gente que eu nem conhecia. E comecei a olhar os vídeos (lembram que lá tinha um espaço para vídeos?) Até que eu trombei com a Nara Leão cantando Joana Francesa. Nunca tinha ouvido falar da música, muito menos dessa versão dela. A Nara sorrindo em preto e branco. Canto em português e francês com muito charme. Errando o comecinho da música duas vezes. Ai meu Deus. Até que ela dá uma olhadinha pra cima e começa a cantar.

Não sei se cabe a cada um de nós poucos ou muitos desses momentos na vida. Dessas coisas minúsculas vistas de longe, mas que jogam a nossa vida para um outro lado qualquer. Um bater de asa de borboleta no Japão. Muitos ou poucos, esse foi um. Eu não sou uma pessoa muito musical. Mas aquela música, aquele vídeo, naquele momento me emocionou tanto que eu senti um arrepio. E pensei: decidi, vou fazer Francês.

O mais curioso em ser dessas pessoas que tomam decisões por impulso, por subjetividades muito mais do que por racionalidades e por planos (e eu não estou certa que esse seja o melhor jeito de tomar decisões de vida – muito provavelmente não) é pensar nos caminhos alternativos que a minha vida poderia ter tomado fossem outras as situações impressionantes que passassem pelo meu caminho.

 

Ano passado, por exemplo, no meio dos ritmos comuns do cotidiano (o tique taque dos relógios, os cem passos até o ponto de ônibus, os 20 minutos de caminhada até o trabalho, a musiquinha do despertador), alguma coisa destoou. Semicolcheia semicolcheia colcheia. Era meu coração dando uns trancos. Mal sabia ele o que ainda estava por vir. (Coração físico e metafísico batendo na mesma toada esquerda, gauche, torta. Mas essa é outra história).

Entre os muitos exames que o cardiologista pediu que eu fizesse estava um ultrassom do meu coração. Nunca esqueço. Vi meu coração na tela e o médico explicou: aqui, o vermelho é o sangue entrando e o azul é o sangue saindo. E aí ele ligou o som. E o que eu ouvi não foi o tum-tum tum-tum que a gente ouve no peito de alguém. Foi uma espécie de shvush shvush, o sangue sendo bombeado. E ouvir assim meu próprio coração foi uma das coisas mais bonitas do mundo. Fiquei muito impressionada. E cheguei a pensar que, caso eu tivesse feito esse exame antes do colegial, a essa altura da vida poderia até ter virado cardiologista.

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Hoje, comecei a ler Contato, do Carl Sagan. E o começo já é tão gostoso de ler, a personagem principal é tão bacana, que me veio um pensamento parecido à mente: será? Será que se eu tivesse trombado com esse livro antes, naqueles meus passeios meio aleatórios à biblioteca, eu não teria ido para a Física? Para a Astronomia? (Juro que eu até que era boa em Matemática). Que outro “eu” eu seria agora? Que grão de areia ainda pode mudar minha vida inteira?

Black-MirrorSe você já assistiu Twilight Zone e gostou, tenho quase certeza de que vai gostar de Black Mirror. Mas não precisa nem ter assistido: basta gostar de séries dramáticas e inteligentes. Black Mirror é uma série distópica: os episódios – todos independentes entre si, com elenco diferente e tudo – acontecem, principalmente, em uma sociedade com novas tecnologias e nos fazem refletir sobre como todas elas podem interferir na nossa vida.

Não é uma série de terror, mas, pelo menos para mim, foi difícil não ficar tensa com cada um dos episódios. Isso porque, por mais longe que estejamos de aparelhos como o que aparece no s01e03, por exemplo, capazes de gravar e reproduzir nossas memórias, percebemos logo de cara uma desconfortável semelhança com os tempos de compartilhamento, selfies e smartphones em que vivemos.

Cada temporada tem só três episódios e eu só assisti a primeira por enquanto, mas o primeiro episódio foi o mais perturbador para mim. Nele, uma pessoa que sequestra uma “princesa” faz uma exigência ao Primeiro Ministro muito diferente das exigências convencionais. (e não vou comentar mais nada, porque descobrir que exigência é essa e acompanhar se o Primeiro Ministro vai aceitá-la ou não ou se vão conseguir encontrar a princesa a tempo ou não faz parte de toda a graça do episódio). Mas é bizarro acompanhar a reação do público a toda situação.

15millO segundo episódio mostra um mundo completamente diferente do que vivemos: nele, as pessoas são obrigadas a assistirem uma tela o tempo todo enquanto não estão dormindo e, caso queiram pular as propagandas, são obrigadas a pagar por isso (dinheiro que elas ganham pedalando em uma bicicleta ergométrica o dia inteiro).

gno7ymbzdhxplid3iinkNo terceiro, como eu disse ali em cima, todas as pessoas possuem um equipamento que permite que elas gravem as próprias memórias, as assistam de novo e as exibam em telas de tv para outras pessoas. O episódio mostra o absurdo todo que isso gera na vida de um casal (imaginem em uma briga: “não, as palavras que você usou foram exatamente essas: play”) e tem uma cena bastante marcante em que os dois transam mecanicamente assistindo à memória deles mesmo transando em um dia anterior.

Enfim, fica a dica. Pelo que eu vi, a série está quase toda no Youtube. Deixo aqui a promo:

A leitura da Simone de Beauvoir, de quem gosto muito, me levou a ler Sartre. Gostei muito também. Parece que toda a filosofia antes dele (ou mais ou menos, já que Heidegger e Husserl chegaram a esboçar pensamentos no mesmo sentido) acreditava que o homem tem uma essência,  algo que cada um é mesmo antes de nascer. Assim, por exemplo, o Platão acreditava (grosso modo) que existiam formas perfeitas e que todas as coisas do mundo são reproduções dessa perfeição e muitos outros falaram de alma, de destino. Para o Sartre, não. A frase-chave do Existencialismo é “a existência precede a essência”: o homem é um vazio e se constrói por seus atos, não há nada antes deles. O homem é movimento em direção a ele mesmo, “para-si” (já que ele está sempre em busca de se constituir). A realidade humana é liberdade, justamente porque é gratuita (gratuita porque não tem causa, já que não tem nada que venha antes e que a determine). O que é bonito e triste, porque somos condenados a ser livres (outra frase sartriana famosa). Existe um drama na liberdade, porque se somos o que fazemos, não existem mais desculpas (não podemos dizer que fomos covardes porque nascemos assim ou porque Deus quis ou porque era para ser) e, do mesmo jeito que são completamente livres, os seres humanos são completamente responsáveis por seus atos.

Estar em vez de ser é maravilhoso, mas aterrorizante. Toda ação (e não agir também é ação, também é escolha) carrega essa responsabilidade. Acho que gostei de ler o pouquinho que li de Sartre justamente porque tenho experimentado este completo vazio. Essa sensação de trem descarrilado. Tudo o que eu faço sou eu, mas eu não sou. Só a morte transforma as pessoas em absolutas, em começo meio e fim, em destino. O que não deixa de ser curioso: porque significa que só se é quando não se é mais.

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(Da série: falando do que não entendo muito bem, como quando falei de Física).

Falando sobre coisas que eu nem entendo: em 1905, Einstein descobriu que não faz sentido falar de espaço sem tempo e vice-versa. Nem tempo e nem espaço são coisas absolutas: espaço e tempo são um emaranhado. Esse emaranhado pode ser distorcido por massas (e a força da gravidade é um reflexo dessa distorção). Tem a ver com Einstein também a história de que o tempo passa de formas diferentes dependendo do observador. É aquela historinha: se um irmão gêmeo ficar na terra e o outro ficar alguns anos no espaço, quando ele voltar, ele estará mais jovem do que seu irmão que ficou por aqui, porque o tempo passa mais devagar quanto mais rápido se viaja. Parece louco e achismo, mas não: isso foi comprovado (e é com base nesse conhecimento que os GPS funcionam).

(Na velocidade da luz, o tempo não passa. Se fosse possível viajar mais rápido do que a luz, o que aconteceria? Voltaríamos no tempo?)

Também a gravidade influencia a passagem de tempo: quanto mais perto da Terra se está, mais sujeita uma pessoa fica à curvatura que a Terra provoca no espaço-tempo e, portanto, mais devagar o tempo passa para ela. Significa que, na praia, o tempo realmente passa mais devagar.

Segundo Doctor Who (assistam! assistam! assistam!):

Em mim, tudo o que é racional é a mais completa farsa montada pelo meu eu-profundo. E fujo tanto à minha própria compreensão que quase chego à conclusão de que não existo: antes, porém, procuro, penso, desenvolvo uma complexa cadeia de raciocínios lógicos para provar que estou errada e, mais uma vez, minto. Uma mentira repetida mil vezes vira verdade? Hesito na 999ª vez e recomeço: uma mentira nova, um novo conto, mais uma novela, página virada. Sou uma reprodução de mim e me pergunto se chego a ser o melhor de meus personagens. Ao que me respondo: sim. Novecentas e noventa e nove vezes.

Tem muita (muita) gente que não curte, mas eu acho videoarte uma coisa interessante, às vezes. Esse tipo de expressão artística surgiu lá pelos anos 60, quando as câmeras portáteis ficaram mais populares e a diferença entre ser artista e não ser ficou menor, porque o instrumento estava ali: ao alcance de todos. Os artistas da época tentavam fazer arte que fosse não narrativa, para tentar se diferenciar de tudo aquilo que passava na televisão ou no cinema.

Uma das histórias que sempre me impressionaram é a do Bas Jan Ader. Os vídeos dele, num geral (mas principalmente na série Fall, que significa Queda) trabalham com as noções de falência e de desaparecimento, usando a imagem do artista que cai e que chora (comum nos anos 70). Curiosamente, além da câmera, a técnica que ele usava era: a gravidade. E, com ela, apesar de ter um lado engraçadinho e até meio surrealista, ele criou trabalhos melancólicos e que interrogam sobre o sentido da vida.

Um dos vídeos dele, por exemplo, o I’m too sad to tell you (estou triste demais para te dizer), em looping, mostra ele mesmo chorando. Daí a gente olha aquilo e se pergunta: será que ele está sofrendo como pessoa ou como artista? Será que ele está mesmo sofrendo? Ou será que ele é um fingidor, como diz Pessoa sobre os poetas?

Nessa época, era muito forte a noção de que vida e arte são indiscerníveis. E a própria vida do Bas Jan Ader refletiu um pouco isso (e aí está a parte que realmente me impressiona): enquanto estava gravando uma parte de uma obra chamada In search of the miraculous (à procura do miraculoso), ele se perdeu no meio do oceano. Só o barco dele foi encontrado, alguns meses depois.

Tem coisas que são engraçadas: a gente começa a arrumar os e-mais todos em pastinhas, a deletar os que não servem mais para nada – ressaca e resolução de pontas soltas que acaba por acontecer depois da arrumação de tudo o mais, inclusive de mim mesma, que vem sempre no final do ano (e 2014, para mim, ainda não acabou direito) – olha o e-mail de uma pessoa que, estranho, a gente não vê faz tempo e resolve mandar um oi, perguntar o que aconteceu. Ela estava triste, parou de ir à faculdade e responde tão emocionada por eu ter lembrado dela que eu fico sem saber. E o tempo está tão fresquinho que lá vou eu subindo cinco andares pela escada, como se não houvesse amanhã. Mas há: amanhã, eu tenho que entregar um trabalho imenso. Uma preocupação a menos, um tempinho a mais para dormir, uns troquinhos a mais. E amanhã eu recomeço a concluir esse fantasma de 2014, aos poucos. Ao mesmo tempo, não sei se quero o fim – que são difíceis, ainda que haja um recomeço logo ali -, empaco no trabalho e venho escrever no blog e procrastinar, como quase sempre nessas situações. Eu vou e não sei para onde estou indo, é normal? Continuo subindo os cinco andares? Apaixonar-se é sempre solitário? Me diz, por que que o céu é azul? Que pessoa é essa que eu me tornei às minhas custas?

Não sei. Talvez descubra amanhã. Será?

Apesar de. Estava eu voltando hoje para o apartamento nessa noite abafada, tomando um sorvete de chocolate, quando percebi: isso era tudo o que eu esperava da vida no dia de hoje (e até mais que tudo!). Sobre amanhã, não sei: a gente sempre quer tanto, a gente sempre espera tanto e usa palavras grandes como “sempre”, “nunca”, “impossível”, “felicidade”, “tristeza”. A gente tem tanta fome das coisas. Tanta fome. Mas, sabem do quê? No dia de hoje, no instante agora, no momento-já, minha alegria é palpável: esta cidade, este apartamento e o sorvete de chocolate na noite abafada.

Imagine por um segundo que Deus tenha criado o gato à Sua imagem.

O gato?

Sim, o gato. Depois de mil anos ou de alguns segundos, sei lá, Deus criou o homem.

O homem?!

Sim. Com o único objetivo de servir o gato e de ser seu escravo até o fim dos tempos.

Escravo?

Exatamente. Assim, Deus deu ao gato indolência e lucidez e, ao homem, neurose e paixão de construir e de possuir as coisas.

Sei.

Sabe nada. Assim, o homem só foi criado para se responsabilizar pela existência do gato. Tá entendendo?

Sim, sim, tô entendendo.

É isso. Toda a civilização que o homem construiu só teria um objetivo: oferecer ao gato conforto, comida e abrigo.

Ao gato?

Exatamente. Assim, o homem só teria inventado milhares de objetos para produzir outros objetos necessários ao bem-estar do gato. O pescador, o tapete, a almofada, o aquecedor, a tigela. Talvez também o rádio, porque os gatos gostam de música.

Fico feliz que você tenha resolvido o problema de quem nós somos e por que, fazia tempo que isso me perturbava.

Me perturbava também, mas tá vendo? Era só pensar um pouco.

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Cena de Eu te amo, eu te amo (Alain Resnais, 1968)

Uma mistura de guache e gauche.

Rebobinando

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